Archive for Dezembro, 2007

Um Chá em Belém


Quantas vezes não escutou já esta expressão: “de médico e de louco todos temos um pouco“? Algumas vezes. Como? Muitas vezes? Claro! Assenta aos portugueses como uma luva! De pelica. Macia, ajustável, doce ao toque e protectora. Nós somos o máximo. Mas que crise se pode dar ao luxo de não saber que à mesa de um qualquer café um grupo de sabedores nacionais, em meia dúzia de dissertações, não resolveria a coisa e ponto final. Seja o que for: Opas, vazio de Poder, Cimeiras, Viagens, Ambiente, Greves. Saúde, Ensino (a lista é longaaa). Peritos em tudo, é o que é, e pronto. São os genes, heranças de personagens e passados. Está no sangue e destila no fado.

Mas, Belém e São Bento é que nos ignoram… Se “os fazedores de imagem” adquirissem o s-a-l-u-t-a-r hábito de escrever na agenda do Presidente a utilidade de convidar, de quando em vez, um anónimo cidadão para saborear nos jardins do Palácio Rosa, ou mesmo na verdejante área da piscina, um desprotocolar encontro onde pudessem falar livremente nos temas que, ao fim e ao cabo, atormentam os dois. De maneiras diferentes, acrescente-se, mas toca.

Ali, só os ordenados seriam, por certo, diferentes. As dimensões das preocupações também, mas os factos lá estariam, ansiosos por transpor os muros da oficialidade e entrarem num diálogo aberto, por vezes (canja) surrealista, louco, desengonçado mas quem sabe se neste, naquele, ou noutro ainda, um não conhecido, não doutorado, não ex daqui ou dali, tão somente um passeante pelos dias das suas aventuras -seja lá isso o que for-, dissesse algo seu, agarrando e interpretando ângulos, análises, abrindo, à sua maneira, espaços de projecção que ele nunca imaginou divulgar. O Senhor Presidente que me desculpe, mas tem um povo genial. Aproveite-o. A maioria gosta de si.

Mantenho o mesmo para São Bento, só tenho a leviandade (são os tais genes, heranças do passado…) de o aconselhar a não levar para o hipotético e prazenteiro encontro nem o Ministro da Saúde, nem a ministra da Educação e, já agora, por favor (sei que lhe dói), a Drª Edite Estrela, já não a podemos ver permanentemente a sorrir. É que nunca ouvimos as anedotas. São coisas.

Como dizia no início desta crónica “de médico e de louco, todos temos um pouco“, o que sucederá se o tema for futebol? Ah! aí a coisa fica a escaldar. O sr. Scolari que se cuide já que nós, portugueses, nas bancadas das nossas vidas, vamos resolver passo a passo os jogos com prolongamentos e tudo. Vão ser as equipas, tácticas, substituições, convocações e árbitros 5 estrelas. Um mimo. Ele só tem de nos consultar. Pode ser pelo telefone, por mail, por sinais de fumo, tambor, mas o ideal seria levar-nos com ele para os estágios para aqueles hoteis capazes de dar vida a um moribundo. É que nós somos mesmo bons! Se pusessemos em prática toda a nossa capacidade inventiva, Portugal ficaria num piscar de olhos à frente de toda a Europa, liderávamos tudo.

Já repararam como chega a ser impressionante o número de inventores portugueses que em exposições internacionais de grande credibilidade arrebataram prémios, não de consolação, recordo, mas os primeiros lugares. Essa realidade mostra bem como temos tanto de engenhocas, como de imaginativos e, simultaneamente, sonhadores.

Certo que são atributos diferentes, mas em todos existe um laivo de criatividade que aperfeiçoada pode levar a realidades perfeitas Somos uns espécies de lampadinhas, com o perfil dos criativos, aqueles a quem frequentemente se acende na mente a lâmpada que pisca e assinala o início da descoberta. Não tem nada a ver com a idade.

Relembre como Mozart, aos 20 anos, revolucionou os padrões musicais da época, como Newton, aos 23 formulou a teoria da relatividade. Nem todos somos génios, mas a capacidade de sonhar e imaginar é o motor principal para a genialidade. E, sabe lá, a quantidade de sonhadores que há por aí a interrogar as estrelas?

Por falar em génios lembro que a partir de sábado, em Chaves, vão reunir-se 40-quarenta- inventores portugueses que vão deslumbrar com os seus projectos, desde a casa ecológica com tijolos de papel (conferi, afirmo) a um motor de água solar. Quem sabe, sabe. Vá à IV edição das jornadas Flávia Criativa-Salão de Inventores Júlio dos Santos Pereira. É mesmo assim, juntando-se, eles, os criadores, tornam sonhos em realidades.

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A força de Franklin Roosevelt

“Somos realmente testados quando a tristeza chega. Porque só quando se esteve no vale mais profundo se pode saber como é magnífico estar na montanha mais alta”.

Volte atrás e leia atentamente este pensamento breve mas sublime de Franklin Roosevelt –o 32º Presidente dos Estados Unidos-, brilhante estadista norte-americano(três vezes reconduzido à Casa Branca). Como se sabe Roosevelt não teve uma existência marcado pela facilidade, desde que em 1921 um ataque de poliomiolite o deixa praticamente paralítico.

Mesmo assim, sempre se moveu enérgica e brilhantemente, não só na esfera política como na sua própria vida. Nunca cedeu às dificuldades, foi um lutador a tempo inteiro e ainda hoje, é reconhecido por analistas e historiadores como um dos mais lúcidos e vigorosos políticos que passou pela Casa Branca, quase sempre em cadeira de rodas.

É fácil de imaginar como na época, sem a capacidade de utilizar as técnicas modernas que existem actualmente na Medicina, deve ter sido dolorosa, penosa mesmo, a sua luta em termos físicos. Para o tradicional “homem mais poderoso do Mundo” (como ainda hoje é conhecido o Presidente dos Estados Unidos),os dias nasciam sempre difíceis mas ele, como todos nós, encerramos no computador mais perfeito deste planeta azul e transparente, o cérebro, a capacidade indestrutível do querer. E os que a querem utilizar não desanimam nem perante as dificuldades nem perante as diferenças.

Roosevelt foi dos muitos exemplos que na História deixaram marcada a sua tenacidade e o seu valor. Mas não é preciso ser Presidente para se ser lutador. Nem é exigido que façamos História. Se tal acontecer, tanto melhor, mas o importante é o ser humano dar à sua mente e ao seu corpo a possibilidade de querer deixar o vale da tristeza e do desespero para subir à montanha mais alta.

É que o corpo humano, como disse Franco Ossola, seu profundo conhecedor, “…é um centro energético por excelência, é um turbilhão de constelações, sóis,planetas, radiações de luz e fluxos vitais, interpenetrando-se de forma tão inteligente a ponto de levar a acreditar em milagre…”. Fascinante esta análise, não é? E como analisar as capacidades da mente humana? É um mundo fascinante e inesgotável que nos deixa frente à possibilidade de lutar quando situações inesperadas ou dolorosas nos atingem.

Agora que a Noite de Natal está a chegar, é preciso recordar que é uma época que pode oscilar entre a grande alegria, a grande infelicidade, tristeza ou solidão. Há excessos de emoções. Seja qual for a sua situação não se deixe abater por sentimentos penosos. É a altura certa de revigorar a luta porque quando se quer, consegue-se!

O 2007 pode não ter sido um ano de sonho, nada correu como queria; clinicamente o seu estado já teve dias melhores; a saudade dos ausentes pesa muito no coração; as dificuldades financeiras atrapalham tudo. É verdade. Essa verdade tocou a muitos, mas a vida continua e você, hoje, vai querer preparar-se para enfrentar 2008, de peito aberto, desafiando a vulnerabilidade e a grandiosidade da força humana.

Quer esteja radioso, pálido, sozinho, acompanhado, doente, ou pleno de vitalidade, vai prometer a si próprio abrir os braços a um ano todo novinho para ser vivido e vai dar a magnifica oportunidade a si próprio de subir à montanha mais alta, onde se avista e se sente a beleza, a felicidade, o amor e a vontade poderosa de vencer.

Feliz Natal e Feliz Ano Novo


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Mourinho vai para o Barça

Nas reportagens ou entrevistas que me couberam fazer ao longo da minha carreira ainda hoje recordo algumas que por este ou aquele motivo marcaram a minha memória de forma indelével. O general Galvão de Melo, por exemplo, foi o único que se deixou entrevistar ao som de belas sonatas que ele próprio tocava ao piano. Foi magnífico, confesso, mas exigiu-me uma concentração extrema. No fim, ofereceu-me um belíssimo ramo de rosas do seu jardim, em Birre, que ele próprio cuidava com a eficiência de quem sabe do assunto e de quem adorava o tema: flores.Foi um momento de classe, sem dúvida.

Em 77/78, não preciso com rigor, neste momento, Otelo Saraiva de Carvalho falou e deixou-se fotografar enquanto punha a mesa para o almoço. Claro que não demonstrei mas estava grata ao destino por me facilitar a captação tão invulgar numa entrevista (que não tinha sido muito fácil de conseguir) com um dos heróis do 25 de Abril. Lá estava ele despreocupado e tranquilo, frente à objectiva que não cessava de disparar e eu, sentada no sofá, esperava que ele falasse muito. E falou.

Quando Ramalho Eanes se tornou locatário do Palácio Rosa fui das primeiras jornalistas a entrevistar sua mulher -que não aceitava ser tratada por Primeira Dama-, e assim que fui recebida numa das salas de Belém e me encontrei frente a Manuela Eanes o que de imediato me impressionou foi o seu tom de voz: muito melodioso e muito tranquilo. Entrevistei-a imensas vezes e em cada encontro descobria sempre mais no seu fascinante perfil humano. Aconteceram factos curiosos que continuo a lembrar. Quando nasceu o seu filho mais novo e fui ao quarto da clínica, o diálogo foi com uma mulher feliz e apaixonada. Sempre os achei um casal muito unido, apesar dos tempos em Belém, não terem sido fáceis.

Quando o Professor Gentil Martins separou, no Hospital da Estefânia, duas irmãs siamesas unidas pelo abdómen,pouquíssimos repórteres ficaram até ao fim da operação e, curioso, as baixas verificaram-se mais no elemento masculino, Até sei de quem teve de ficar com a máquina fotográfica até o colega se recompôr.

Menezes Alves, o eterno candidato a Belém, queria deixar-se fotografar ao fogão- é que ele era mesmo um excelente cozinheiro-. Eu é que achei a ideia demasiado livre para o cargo a que se candidatava e dei-lhe outra. Fiz mal. Nas eleições seguintes foi fotografado numa moto. Como ele adorava velocidades. Até hoje nunca chegou a Belém, mas deu entrevistas divertidissimas.

Álvaro Cunhal não era um entrevistado difícil, como cheguei a pensar antes de conhecê-lo. Entrevistei-o três vezes e no primeiro encontro a única divergência foi motivada por uma jarra de flores que eu queria colocar na mesa e ele recusou. Com charme, mas recusou. E ganhou, claro.

Pinheiro de Azevedo deu-me das últimas entrevistas da sua vida. Foi um sufoco. Eu e o saudoso Carlos Gil, não conseguíamos resistir ao contágio da dor do Almirante que do princípio ao fim soluçava pela situação de Olivença. Ainda hoje tenho esa entrevista gravada e, quando a ouço, fico de lágrimas nos olhos. Era uma pessoa adorável, mas não foi nada fácil gerir tanta emoção.

A entrevista, a primeira, com Maria João Pires foi tirada a ferros.Quando obti o sonhado sim, nem queria acreditar. Na sua casa,no Campo de Santana, a notável pianista portuguesa foi fluída,sincera e humaníssíma no diálogo.Mas, tocar nas teclas negras e brancas do piano, à nossa frente, é que nada deste mundo a convenceu. Sentou-se frente a ele e foi o máximo. Mais tarde compreendi a sua atitude e dei-lhe toda a razão.

Adorei entrevistar Baptista-Bastos,Pedro Oliveira, José Mensurado, Vinicius de Morais, Max (uma ternura) e quantas largas centenas de homens e mulheres que permitiram tornar densa a minha pasta de trabalhos. Foi muito bom mas como diz uma amiga: “eu não tenho idade, tenho vida!”

Só agora lembro que o título da crónica de hoje era sobre Mourinho mas, há sempre tanta coisa para contar! No futebol, só entrevistei Humberto Coelho e Futre. Eu que nunca fui a um campo, atavessei (a seu lado) o relvado do Atlético de Madrid. Que bem me senti! Até parecia que as palmas ecoavam para mim. Fui a Madrid, eu e o Jorge Jacinto, e fomos recebidos pelo menino de ouro com toda a simpatia e profissionalismo. Sobre o “número 1” não devo ter sorte nenhuma, mas o que tiver de ser, será.

Acho que ele fez bem em não querer voltar a Inglaterra. Barcelona está-lhe no destino e vai ser muito bom vê-lo dominar no sector em que é perito. A peregrinação dos portugueses pelo Mundo está a abrir-se (como um leque) ele é mais um dos bons a levar a mensagem…Mais dia menos dia estará novamente a despedir-se de Setúbal.

Por despedidas, sabe que a mais bela palavra de despedida é a japonesa:”Sayonara”, que significa (mais ou menos) “Já que tem de ser assim…”. “Auf Wiedersehen”, “Au revoir”, soa a ilusão, um até à vista; são expressões frias e parecem não oferecer consolo para a separação, não disfarçam a partida e soam como “Vai pelo mundo e sê bem sucedida”. Verdadeiramente, não há emoção.

Já “Goodbye”, “Adeus”, dizem em demasia, parece que abraçam a distância, tentando mesmo negá-la. Soa a prece “Não podes partir, não posso conformar-me com a tua ausência” ou “Se tens de ir não iras só- Deus estará contigo”.

Mas, “Sayonara” é a palavra certa. Não diz de menos nem de mais. Toda a compreensão da vida parece encerrar-se no seu conteúdo; as emoções entrecruzam-se neste adeus deliciosamente musical: “Já que tem de ser assim…”. Um fica e outro parte, protegidos pela serenidade. Despedidas são sempre situações penosas mesmo que rotineiras e breves.

Poucos serão as que não se sentem tocadas no momento culminante do adeus; pressupõe lágrimas, abraços, corações apertados, desejando o regresso rápido capaz de suavizar a separação. Se “Sayonara” é de todas as expressões a menos trágica, mais melodiosa, mais bela, não deixa de envolver uma despedida que é, sempre, marcante. Quantas de nós já não vacilou nos derradeiros momentos? Que vontade de olhar para trás, acenar e correr a aninhar-se nos braços ainda quentes do abraço prolongado? Mas, apenas partimos, com o coração em alvoroço, querendo voltar…”Sayonara”.


Saudades de Angola

Não é por estarmos quase a chegar ao Natal, uma época que tradicionalmente abre ao Mundo o convite da boa vontade e fraternidade entre os homens; nem sequer pelas Cimeiras, realizadas recentemente em Lisboa, onde de forma intensa se tentou desbloquear realidades cruéis, na tentativa de sucesso por muitos ambicionado; nem pelo frio rigoroso que ultimamente se tem feito sentir, contrastando com o calor tropical de África, que este continente ficou mais agarrado ao coração de quem, há muito ou há pouco tempo, o deixou.

Os portugueses, alguns portugueses, milhares de portugueses, andam tristes. Perderam o sorriso como se ele fosse esquecido involuntariamente numa bagageira sem destino, quais passageiros de uma aventura com Angola guardada na mão.
Senhores de sonhos que lhes marcavam o futuro, deixaram-na, voluntariamente ou à força, com uma tal paixão, com tal entrega, que, distantes de tudo, enfrentaram sucessivos desafios ao tentar superar obstáculos imensos e desmotivadores.

Muitos deles –negros, brancos, mestiços- venceram. Outros não. Desistiram de viver. Outros, apenas, estão! Estão aqui sem Alma, por isso não estão em lado nenhum!
Respiram e riscam as horas pensando e repensando na esperança de verem, um dia, o brilhar do Bengo, de beber da sua água; de se sentarem nas margens serpenteadas e musicais do Lumege; de verem o sol romper, poderoso, na idílica barra do Quanza; de uma qualquer tarde se poderem esparramar sem elegância, e muito menos etiqueta, nos densos campos, alvos e macios, de algodão, soprando as flores como crianças libertas e felizes.

Como eles, confesso, eu também visualizo a Tunda Vala, e, sonhando,deslizo pelos céus do magnífico Sul angolano, verdadeiro fascínio da Natureza, no seu estado mais puro. Inibriante. Passo para o Leste e deleito-me olhando as silhuetas de Luena (eterno Luso. Quanta saudade.
Fico minutos infindos sobre a cachoeira do Úcua e sinto que há lágrimas minhas misturadas no rendilhado das águas barulhentas. Emociono-me sobre a Praia Morena (Benguela) e encho-me de acácias rubras que vou espalhando pelas brisas mornas de Angola.

Abro os braços aos cafezais e beijo as gordas bagas rubras de cheiros loucos que atordoam e enfeitiçam. Todos juntos, embora desconhecidos, quantas noites não visualizamos já as águas mornas e transparentes do Mussulo, quais esmeraldas flutuando ao sabor das águas africanas? Quantas saudades da imensidão do Namibe? Do verde de Maiombe? Do ritmo de Angola? Das suas cores intensas? Do seu ritmo trepidante, contagiante, inesquecível?

Há demasiada saudade neste Portugal de hoje; há demasiados saudosos dos cheiros de África, do ritmo de África, dos sabores de África, até das simples palmeiras ondulantes, sempre ao alcance das mãos. São saudades torturantes de homens, mulheres e crianças que estão cá mas a Alma, essa, ficou lá


O Hino de Manuel de Oliveira

Já deve ter dado por si muitas vezes a indagar sobre a personalidade que, ao longo da História, mais o impressionou. Não é tarefa fácil -(conforme ficou mais ou menos demonstrado no programa “Os Grandes Portugueses” que a RTP, baseando-se num formato internacional, fez passar em Portugal, devidamente enquadrado na História portuguesa.

O resultado como se lembram foi, no mínimo, como é que hei-de dizer isto? Foi desconcertante! Um manancial riquíssimo para os Psis tentarem desatar o nó da personalidade dos portugueses. Desconfio que ainda devem andar nas primeiras tentativas)- chegar a uma conclusão porque, felizmente, em todos os tempos muitos homens e mulheres –pela sua estatura moral, pela capacidade inventiva, pela amplitude de horizontes, pela bravura e sensibilidade- autenticaram, notavelmente, a sua passagem pela Terra e souberam, apesar das dificuldades e incompreensões de várias épocas, encontrar a forma de irromper da multidão.

Leonardo da Vinci, Newton, Chopin, por exemplo, ao darem o passo em frente que os transportou aos espaços da imortalidade ainda hoje continuam a fascinar gerações. O que os terá feito diferentes? Um conjunto de causas e circunstâncias, onde a curiosidade e a insatisfação não estiveram ausentes. Só as pessoas permanentemente curiosas e insatisfeitas têm a marca da diferença e são capazes de impulsos geniais, tal como Galileu, quando marcava o tempo da queda dos objectos que deixava cair da Torre de Pisa.

Não era o desejo da glória que o movia, era o seu espírito curioso em acção. Recordar a vida de homens assim aviva-nos a necessidade de abandonarmos, de vez em quando, a estrada de asfalto e aventurarmo-nos pelos campos. É preciso descobrir, hoje, qualquer coisa nova. É preciso, hoje, ter um pensamento novo. Aproveite a vida. Como disse Wendell Holmes: “Quando uma nova ideia alarga o espírito do homem, ele nunca mais volta à sua dimensão primitiva”

Ao lembrar-me de personalidades portugueses notáveis ocorrem-me muitos nomes já que, felizmente, a lista é longa e de grande qualidade mas reportando-me aos dias de hoje, no campo das Artes, lembro Manoel de Oliveira. Fascina-me. Deslumbra-me mesmo e, confesso, não o conheço pessoalmente -cruzei-me três vezes com ele em Cannes e parece-me que pouco mais-.Não devo ter visto mais do que dois filmes seus; portanto, não sou fã. Nem aguerrida, nem serena, mas publicamente garanto que vou ver o seu último filme “Colombo”. O tema interessa-me e sinto uma mão forte e invisivel que me empurra para uma sala onde a película esteja em exibição.

Como se sabe Manoel de Oliveira, há dias, tomou conhecimento -ele e todos nós, a notícia veio publicada nos jornais-, que a partir do próximo ano deixará de receber subsídio para fazer mais filmes. Bomba. Ora o”mestre”, no mínimo, já deve ter em formação mental mais três filmes, ou serão sete? Ou mesmo nove?O que fará, então, com as suas ideias claras, definidas? Com aquele humor precioso e subtil? Com a determinação invejável que o orienta e estimula? Onde vai arrumar os sonhos e praticá-los numa realidade colorida que o alegra? Como vai ele coabitar (numa calma para onde querem empurrar) com o espírito independente e indomável que agora o caracteriza?

Deixar de fazer filmes?Manoel de Oliveira? Pela ausência de subsídio? Nunca! Pela idade? Que idade! 99 anos? Mas há quanto tempo, senhores, ele ultrapassou a barreira comum dos mortais! Já bebeu pelo Cálice da Vida e saboreou-o com tal prazer que se transportou para o caminho dos deuses. Apaixonou-se pelo gosto de viver e ponto final. Quem manda é ele e nessa festa, que é a sua vida, 99 anos apenas marca horizontes nas fronteiras dos seus projectos. Futuros projectos , queria dizer.

Ora é precisamente a capacidade de Manoel de Oliveira ter constantemente novas ideias, de ser um curioso e um insatisfeito, de ter impulsos geniais e saber destacar-se da multidão que me deslumbra e fascina. Estrear e participar num filme seu, aos 99 anos, é um Hino à Vida.