Archive for Janeiro, 2008

As Esquecidas da Força Aérea

A primeira vez que vi enfermeiras pára-quedistas (duas) foi na verdadeira babilónia que se registava no aeroporto da Portela, em Lisboa, em 1963, quando embarquei para Bissau (Guiné). Envergando a farda caqui, se a memória não me prega partida, o que recordo nitidamente é que tinham ao ombro uma carteira tipo pasta, julgo que preta e uns sapatos de salto baixo, também pretos.

Lembro-lhes a postura vigorosa, decidida e elegante. Na cabeça, uma boina verde com o emblema da Força Aérea e, por vezes, um sorriso gracioso que sabia bem ver já que o ambiente era, na altura, de crispação. Penso que teriam seguido para Angola num voo militar, a partir de Figo Maduro, já que a bordo do avião da TAP não as vi.

Pelo ritmo da minha profissão viria a encontrá-las, mais tarde, em Angola, por diversas vezes e a ultima vez que as vi, já nos anos 80, foi em Tancos (Arripiado), numa reportagem que fiz com o saudoso mestre da fotografia, Carlos Gil, e, no dia seguinte, na redacção da revista Mais, em Lisboa, onde as consegui juntar numa foto única e histórica.

Olhei aquelas nove mulheres e agradeci-lhes em silêncio. Eram um exemplo de valor e dignidade que eu tinha o privilégio de fixar. Tocou-me esse momento. Havia nos seus olhos, pregados na câmara do Gil, um misto de orgulho e tristeza. Valorosas nas suas fardas azuis, reuniam-se na redacção de uma revista, anos depois de terem deixado os cenários de guerra.

Ivone Reis-capitão (1961), Eugénia de Sousa– capitão (1962), Manuela França– capitão (1962), Céu Esteves– capitão(1962), Mariana Gomes– capitão (1964), Rosa Mendes-capitão (1964), Francis Matias– capitão(1973), Natália Pinheiro– tenente (1973) e Lurdes Lobão, primeiro sargento (1974), representavam páginas vibrantes, gloriosas, de sacrifícios levados ao extremo nas linhas da frente na guerra do Ultramar.

Foram os verdadeiros anjos que caíam do céu (eram assim conhecidas), já que muitas vezes a inacessibilidade do terreno não permitia outro tipo de auxílio. Sózinhas, descendo pelos ares com a mala da Cruz Vermelha, caíam mesmo em cima dos confrontos.

Correram os maiores perigos, salvaram vidas e vidas, escutaram milhares de últimas palavras dos que já não regressariam. Foram pioneiras. Foram exemplares. Foram umas heroínas. Viveram horrores, glorificando sempre a farda que envergavam mas, em minha opinião, não tiveram, em Portugal, o reconhecimento que mereciam. Não eram convidadas para estarem presentes no dia da Unidade, nas cerimónias oficiais…

Na altura, lembro-me que lhes disse que elas pareciam ter sido esquecidas pela Força Aérea, argumentaram que não

-Não. Não somos é já necessárias a bordo das aeronaves. Terminaram as situações de emergência

Tudo começou em 1961, 6 de Janeiro, quando seis enfermeiras voluntárias, receberam o brevet e a boina verde, culminando o curso dos Páras (bem conhecido pela sua extrema dureza). Graduadas militares foram enviadas para África, com a missão de prestarem assistência de enfermagem a todos os ramos das Forças Armadas.

Foram anos de guerra, algumas colegas mortas (na pista, uma foi degolada pelas pás de um hélio), tantos horrores que só o orgulho das missões lhes suavizava agora as recordações. Encontrei-as na Guiné, em Angola, várias vezes, sabia dos seus feitos e testemunhava a admiração e o carinho que todos tinham por este corpo feminino nas Forças Armadas.

Houve operações tão marcantes, evacuações tão dramáticas e tão sublimes em que estiveram envolvidas que escutar os relatos era como se estivéssemos a ver um filme empolgante. Elas foram mesmo gloriosas.

Em Lisboa, fui ao Hospital da Força Aérea onde os capitães Manuela França, Mariana Gomes e Francis Matias desempenhavam a suas tarefas diárias. Fui às enfermarias com Lurdes Lobão, primeiro-sargento. Encontrámo-nos todas no lançamento de pára-quedas, que faziam de seis em seis meses.

Ainda hoje as recordo com respeito, orgulho e gratidão e lembro a extrema simpatia de Ivone Reis (capitão), a mais antiga, que sempre foi um excelente elo de ligação com o seu grupo, que nunca perdeu nem a coragem nem a convicção perante desafios medonhos.

Embora tentasse, nunca consegui que nenhuma das nove enfermeiras pára-quedistas deixasse transparecer existir por parte da Força Aérea qualquer tipo de esquecimento para com o seu trabalho na guerra em África.

Mas existiu!


Os Tambores de Taiko

Era domingo e a tarde de Inverno tinha o toque suave de uma doce Primavera antecipada. Sentada num degrau do Palácio Nacional de Sintra, enquanto aguardava pelo espectáculo vindo de Miyazzaki (uma das quatro maiores ilhas do Japão), através de um grupo de jovens (Kunimitsu, Kyoichi, Yoshito, Masaru, Shingo e Shunsuke) que têm na alma, no espírito e estilo de vida, o ritmo do Taiko -um género musical para mim desconhecido, confesso-, mas que mais tarde reconheceria, ser empolgante.

Vim a saber que os tambores que olhava eram conhecidos por Nagadó Taiko, Okedó e Shimé Duiko. E soube, ainda, que o maior Taiko que existe tem um diâmetro de 267cm,foi feito em 1966 e, para isso, foram necessários 5 anos. Pensei logo que o som deve dar para comunicar de Sintra para o Alasca. Pelo menos.
O largo do palácio estava salpicado por poucas pessoas que vinham olhar mais de perto os belos tambores expostos no palco montado para o espectáculo que se anunciava para as 15 horas. Pela pouca afluência pensei que podia arranjar um bom lugar, que era capaz de comparecer pouca gente e que estava ali muito bem a admirar a paisagem idílica que me rodeava.

Em frente, o rendilhado do Castelo dos Mouros a flutuar no Monte da Lua. Lindo. Atrás, o meu palácio. Vivo cá, é meu! Conheço-lhe os cantos, os recantos, a história e a minha imaginação liberta-se pelas escadarias que já trata por tu as memórias do passado deste Paço Real que recebeu D. Manuel II antes de partir para o exílio em Richmond (Inglaterra).

Faço uma vénia a D. Isabel, D. Beatriz. D. João I (esteve em câmara ardente na sala dos 27 Cisnes que o monarca mandou pintar em homenagem à filha, Isabel, no pedido de casamento feito pelo duque de Borgonha), D. Filipa, D. Sebastião, que adorava sentar-se no pátio num banco de pedra, colocado estrategicamente para o paraíso de Sintra. Se não estiver errada creio que foi nesse mesmo banco que O Desejado se encontrou com Luís de Camões e este lhe leu os Lusíadas. Estarei a fazer confusão? Como vou saber a esta hora da madrugada!

Passo por D. Afonso VI e sinto a amargura da sua clausura que durou nove anos, num quarto agora gasto pelos passos então dados. Olho a sua cama e vejo-o frágil, desapegado da vida. Esboço um sorriso malicioso quando olho a Sala das Pegas, onde D. João foi apanhado pela mulher, D. Filipa de Lencastre, a beijar uma dama da corte. Irritado, o rei mandou pintar 136 pegas (o número das damas existentes no Paço) mas todas com uma rosa no bico, homenageando a benevolência com que a esposa soube enfrentar o deslize matrimonial.

Perdida nos pensamentos históricos só recuperei (será que Camões esteve mesmo aqui?) quando começo a ouvir toques de tambores que desciam lentamente as escadarias do palácio. Já no largo, agora completamente lotado, passam pelo público que abre alas para passarem.São seis jovens (um não terá mais de 10-12 anos, penso) que sobem ao palco e nos conquistam com os sons, fortes, fortíssimos, serenos ou apoteóticos. Indescritível. Diferente e arrebatador. Sons renovados, na mais pura tradição do Taiko, transmitindo-nos poderosas emoções.

Ainda bem que acedi ao convite e vim ver os Tambores Japoneses Taiko, em Sintra. Olhei em frente, as árvores tinham florescido, estavam cobertas de flores de cerejeira, rosa e brancas; as árvores, agora mais verdes, salpicavam-se de cor, de plantas exóticas, luxuriantes; do planador que nos sobrevoava caíam flocos matizados, sedosos, deixando o local inebriante de cheiros apetecidos. Balouços, feitos de flores entrelaçadas, moviam-se por cima das nossas cabeças.

Na muralha do Palácio dos Mouros e nas janelas do Paço, damas vestidas à época, jovens e menos jovens, envergando vestes reais, sorriam e acenavam aos sons que, por mais de uma hora, envolveram a sétima vila mais bonita do mundo: Sintra!


Eu e BOTERO… em Sintra


Passo diariamente pelo edifício (belíssimo) do Museu de Arte Moderna, em Sintra e, diariamente, reconheço nele uma inegável beleza. À noite, quando fica estrategicamente iluminado, deslumbra. Em absoluto. Faz-me lembrar recantos de Monte Carlo, onde há edifícios muito idênticos, portanto, lindíssimos.

Mas a beleza que falo deste Museu, pintado a branco e num suave tom de amarelo, foi edificado em 1920, se não me falha a memória, e nele passaram os mais variados inquilinos. Recordo uma escola e umas deprimentes instalações das Finanças, onde fui muitas vezes de credo na boca e estômago apertadinho.

Entrar ali intimidava-me. Pelo cinza decrépito que me envolvia e por pensar no que, aos balcões de umas instalações horrorosas, teria de pagar. Mudaram-se os tempos e as Finanças foram-se -mas passaram-se para outro lugar, iluminado, mais amplo e mais caro, mas isso são outras guerras e hoje estou virada para o belo-.

Desde 1997 que o Museu de Arte Moderna foi aberto (com muita pompa e muita circunstância) ao público com a Colecção de Arte Contemporânea de José Manuel Rodrigues Berardo (uma das melhores colecções privadas do mundo de Arte do século XX).

É ele! O Joe Berardo a quem já os portugueses quase tratam por tu, tantas são as vezes que ele nos aparece em casa, falando de vinhos, de Opas, de bancos, de acções, de futebol. De tudo! É dele todinha esta colecção que é nem mais nem menos uma das 10 melhores do mundo. Sabia?

Pois, nada é pouco na vida deste intérpido madeirense que nunca pensou pequeno e aos 19 anos (nasceu a 4 de Julho de 1944) deixou a sua terra natal e rumou às minas de ouro da África do Sul, onde encontrou o seu caminho de luta e de enriquecimento.

Não sei se foi uma luta muito ou pouco dura, o importante é que ele é hoje um bilionário português, quer dizer: o quinto homem mais rico de Portugal (tenho em casa mais de 27 quadros pintados por mim com muita inspiração, Comendador…), creio que com uma fortuna avaliada em mais de 1,7 mil milhões de euros, e o nosso maior coleccionador de arte contemporânea.

Colecção que vai mostrando ao mundo e permitiu também que Sintra a admirasse permanentemente. Fui a todas, e não é por não pagar, os moradores de Sintra não pagam e os jogadores da 1ª Divisão também não! Esta é que eu não entendo! Esses têm montes de massa, os pequeninos é que não! Um dia hei-de entender.

Falando da exposição Arte Latino Americana, patente no Museu, desde 14 de Dezembro passado, digo já que sim. Gostei e vou voltar, gosto de o fazer, sempre o fiz. É uma viagem agradável pelas espaçosas e silenciosas (gosto daquele inspirador silêncio) das salas do museu.

A viagem começou cá em baixo, à entrada, nos jardins. Virada para o edifício tem à sua direita uma enorme escultura branca, em mármore de Carrara (483x118x75cm), denominada Camino Vital, de 1999, obra de Pablo Atchugarry , escultor do Uruguai, nascido em 1954. Preciosa.

À esquerda, uma imponente escultura em bronze (403x338x180cm.) denominada Male Torso, de 1992, da autoria desse impressionante Fernando Botero. Uma imagem grande, gorda, redonda, de um volumoso torso, com uma pequeníssima folha de parreira. Contrastes!

Como eu gosto do rebelde Botero! Comecei a apreciá-lo em Toronto, quando passava por alguns lugares onde estavam expostas as suas obras. Olhava-as, pausadamente, ao ritmo do bus que galgava as avenidas a perder de vista. Era um bálsamo para um coração de emigrante português. Sempre carente.

Homenageando os bons tempos que as obras deste pintor- escultor já me proporcionaram, sentei-me num banco, quase ao lado deste Torso e recordei o pouco que sei deste colombiano, nascido em Medelin, que quase correu o risco de ser toureiro quando um seu tio o inscreveu numa escola de toureio.

A tauromaquia não era, de todo, o gosto do jovem mas dessa permanência fez, mais tarde, a sua primeira aguarela, O Toureiro. Faria em 1948, em Medelin, a sua primeira exposição. Em 1951 apresentou-se em Bogotá e, em 1966, atirou-se à Europa, na Alemanha, com uma mostra que o consagrou ao mundo.

A sua pintura destaca-se por imagens fortes através de figuras redondas, luzidias, com rostos desproporcionados, mais pequenos. Diz-se que é uma crítica social à ganância do ser humano. Tem obras magníficas.

Nesta exposição onde Berardo apresenta, pela primeira vez, o seu imenso núcleo de arte latino-americana, o conjunto resulta numa vasta diversidade de obras assinadas por nomes históricos do mundo da arte do século XX: o mexicano Diego Rivera, David Alfaro, o brasileiro Emilio Di Cavalcanti, o mexicano Rufino Tamayo, o chileno Roberto Matta, o venezuelano Jesus Rafael Soto.

Os países e os artistas são muitos (impossível referenciar todos) e a eles junta-se, claro, Botero, irónico, mordaz? Talvez! Mas, um artista colombiano de excepção, que voltou a oferecer-me excelentes momentos, quando me sentei ao lado de uma sua obra de arte, em Sintra.


SE

Se podes conservar o teu bom senso e a calma
No mundo a delirar para quem o louco és tu…
Se podes crer em ti com toda a força de alma
Quando ninguém te crê…
Se vais faminto e nu,
Trilhando sem revolta um rumo solitário…
Se à torva intolerância, à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão…
Se podes dizer bem de quem te calunia…
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
(Mas sem a afectação de um santo que oficia
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor)…
Se podes esperar sem fatigar a esperança…
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho…
Fazer do pensamento um arco de aliança,
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho…
Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores…
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo o amor dos teus amores…
Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu jamais lhes deste…
Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,
Voltares ao princípio a construir de novo…
Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,
Só exista a vontade a comandar avante…
Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre…
Se vivendo entre os reis, conservas a humildade…
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti à luz da eternidade…
Se quem conta contigo encontra mais que a conta…
Se podes empregar os sessenta segundos
Do minuto que passa em obra de tal monta
Que o minute se espraie em séculos fecundos…
Então, ó ser sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços!…
Mas, ainda para além, um novo sol rompeu,
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.
Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem receares jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um homem!…

Kipling

Os Oceanos do Tempo

Hoje, ignoramos regras, estatutos, discursos arcaicos e vazios. Hoje, vamos olhar de frente, sem cedências, desmistificando falsos virtuosismos e os profetas do desalento. Hoje, ousamos ousar e provocamos os intocáveis que, escudados, gravitam nas esferas da ignorância anestesiada.

Hoje, é dia de acreditar no vigor da justiça, na sedução da inteligência, na consonância ambiciosa dos que trabalham, dos que não traem, não minimizam, não confundem. Hoje, sem “pompa e circunstância” dialogamos, com a verdade e ignoramos a táctica de dividir para reinar.

Hoje, é dia de fechar a porta à ironia e repudiar jogos de conveniência. Hoje, é dia apenas para estar e saborear. Repare, só por pensarmos e escrevermos, lentamente, abre-se uma janela por onde entram brisas renovadas e estimulantes! Sentimo-nos mais serenos, mais libertos e mesmo mais entusiasmados. A janela, neste caso, é a da Internet que, enigmaticamente, nos deixa na ponta dos dedos o pulsar do Mundo. E não só!

O ponto de encontro dos bloggers é uma riquíssima explosão de saberes e uma total liberdade de visões e opiniões quando atiram irreverentemente para o Globo páginas preciosas de criatividade. Diria que a Internet é uma pérola de procuras. E, por procuras, recordei algo que gosto de relembrar.


“…Percorri os Oceanos do Tempo para te encontrar…”.

Esta frase (linda) pertence a um filme de Copolla, “Drácula” e, obviamente, à partida, nada tem que ver com Portugal nem com os portugueses mas lembrei-me dela quando ao pensar neste jardim à beira-mar plantado (continua a ser, apesar de ondas bravias que por vezes nos atingem), berço dos maiores navegadores do mundo, que nos gloriosos séculos XV e XVI descobriram a maior parte das terras de África, América e Ásia. Portugal, maravilhoso nos seus 90 mil quilómetros quadrados debruçados pelos 800 quilómetros de costa inebriante e renovadamente bonita.


Portugal continua a ser lindo mas, sobretudo, continua a ser um país de essência. Há que senti-la e entendê-la. O desafio nem sempre é fácil! Por exemplo, saudade? O que é? Como a sente? Como a explica? Um estado de alma? Uma emoção? Um afecto? Apenas uma expressão? Seja o que na realidade sentir, saudade é muito palavra muito nossa. Nenhum país a tem no seu vocabulário.

É um estar não estando; é um querer não tendo; é um partir ficando; é um destilar de nostalgia. Não se sabe a sua origem. Há quem defenda que, um dia, foi dita por uma mãe ao despedir-se do filho que emigrava. Talvez sim, talvez não. É bem provável que seja uma herança genética que nos tocou profundamente e que soube resistir ao passar do tempo.

”…Percorri os Oceanos do Tempo para te encontrar…”.

É uma busca tão íntima e, simultaneamente, tão intensa, uma confissão solitária e sofrida que rivaliza com saudade. É um mescla de amor e de sofrimento pela ausência da pessoa amada. Ficava bem num fado! Por isso se Carlos do Carmo o cantasse seria um dolente fado de amor e de procura que poderia terminar assim: “e não te encontrei” ou “amei-te perdidamente”, antecedendo os acordes finais e vibrantes de uma guitarra em forma de coração.