Archive for Fevereiro, 2008

A PAIXÃO DE HAWKING


No tempo em que dos céus de Londres (1942) caíam bombas destruidoras e as sirenes alertavam estridentemente a cidade, os abrigos enchiam-se pessoas em pânico. Nesses tempos difíceis nasceu em Oxford, a 8 de Janeiro, Stephen William Hawking, curiosamente 300 anos depois da morte do cientista italiano Galileu Galilei que, na sua época, desafiou os poderes instalados ao tentar demonstrar que a Terra não era o centro do Universo e que girava em torno do Sol.


Não se pode dizer que na infância fosse fácil admitir que o jovem seria, anos mais tarde, um astrofísico mundialmente conhecido e respeitado até por que Hawking não foi um aluno brilhante nos primeiros anos de escola (Einstein também não), chegando a ser o penúltimo da aula. Todavia, essa pontuação na escala de apreciação não impediu que aos 17 anos, na Universidade de Oxford, tivesse no final do curso de física (a ideia inicial era a matemática) uma excelente nota. É na Universidade de Cambridge que conclui o curso de física teórica, onde se viria a doutorar e a exercer. Aí passa a dar aulas e a ser o responsável pela cadeira de matemática (pertenceu a Isaac Newton) e é eleito membro honorário.


Quando em 1963 patinava no gelo, Hawking dá uma queda que o deixa imobilizado. Mais tarde, aos 21 anos, é-lhe diagnosticada uma grave e rara doença degenerativa Esclerose Lateral Amiotrófica que paralisa os músculos do corpo embora poupe as funções cerebrais. Ano após ano vai perdendo o movimento dos membros e fica sem força para manter a cabeça erguida, podendo dizer-se que a sua mobilidade é quase nula


Casa-se (em 1965) com Jane Wilde (tem três filhos e, creio, um neto) mas a união acabaria por se desfazer. Quando estava em Genebra, em 1985, teve uma severa pneumonia. Os médicos aconselharam a desligar a máquina que o mantinha vivo, mas Jane não o permitiu. Levou-o para Inglaterra e, aí, Wawking foi submetido a uma traqueotomia. Milagrosamente o cientista recuperou, mas perdeu a voz.


Em 1995, volta a contrair matrimónio com Elaine Mason, que era a sua enfermeira. Wawking apesar do seu estado, consegue conciliar a vida familiar com viagens de estudo constantes que o levam num ritmo quase alucinante pelo mundo, dando aulas, fazendo conferências, participando em debates.


A situação física torna-se difícil, capaz de deixar qualquer humano, preso a uma cadeira de rodas para sempre, sem ânimo para se interligar com a vida mas, um dos mais consagrado físicos teóricos do mundo parece redescobrir fontes de novo entusiasmo e é dito por aqueles que o rodeiam que nunca o viram expressar qualquer espécie de revolta.


Hawking tem um senso de humor invulgar e saboreia todos os segundos da sua existência. Além disso, desafia a vida destemidamente. O seu desejo, ainda não concretizável, é ir a bordo do Enterprise, talvez em 2009, mas até agora tem feito de tudo: sobrevoar um vulcão, experimentar a ausência de gravidade. E já entrou num episódio da série Star Trek, participou num disco dos Pink Floyd e participou nos Simpsons, Futurama e Padrinhos Mágicos. Absolutamente imparável. Sempre projectos, sempre viagens. Tanto está no Chile, como no Alasca, Brasil, Argentina…


Aquele que é considerado por muitos como a inteligência mais notável, depois de Einstein (Deus não joga dados com o mundo, disse um dia e Hawking argumentou: Deus não só joga dados, como os esconde). O mais famoso cosmólogo do mundo, com investigação dedicada aos mistérios dos buracos negros, gravidade quântica e teoria da relatividade tem mostrado de forma prodigiosa como sempre enfrentou a sua deficiência Não há muito tempo teve problemas de coração. mas, uma vez mais, venceu a batalha.


Apesar de se ver confinado a uma cadeira de rodas, ao movimento de dedos (durante anos), que lhe permitiu escrever estudos, livros, cujas vendas ultrapassam os 16 milhões e foram traduzidos em 40 línguas, artigos e conferências, num sofisticado computador adaptada às suas necessidades –um teclado acoplado a um computador para controlar um sintetizador de voz, através do qual podia falar-. Wawking deixa todos rendidos à sua inteligência e entusiasmo.


Com o passar dos tempos e o avançar da doença o físico acabou por perder capacidades e deixar de poder usar o computador que, anteriormente, conseguia activar manualmente. Assim, passou a usar uns óculos com um dispositivo acoplado na armação. Através da movimentação dos músculos da face, Hawking pode desviar a direcção dos raios e, assim, controlar as letras que aparecem na tela de um computador.


A novidade revelou-se eficaz pois o físico consegue com este novo sistema escrever mais rapidamente. Aos 66 anos, apesar da doença degenerativa que enfrenta há 30 anos, continua a aprofundar os seus estudos e a estar atento ao que o rodeia. Não há muito tempo, como cientista, alertou os líderes mundiais para o grave risco que seria se o mundo entrasse numa era de armas nucleares e chamou a atenção para as drásticas alterações climáticas que o futuro nos reserva e as mudanças de comportamento e atitude que devem ser tomadas urgentemente.


Os seus cálculos para 2600, alertam para o excesso de população e como é uma pessoa positiva não quer pensar na possibilidade de exterminação da humanidade por uma guerra nuclear, por exemplo. Prefere dizer que continuaremos sozinhos, evoluindo rapidamente na complexidade biológica e electrónica. Pouco acontecerá nos próximos 100 anos mas, no final do milénio (se os povos o conseguirem), a diferença entre nós e a ficção será significativa.


A vida de Stephen Hawking é tão invulgar e tão fascinante que demonstra até que ponto ele é íntimo com a sua própria vontade. Passou dificuldades financeiras em adolescente. Aceitou a sentença da doença, teve problemas em impor-se, na sua cadeira de rodas, mesmo depois de formado. Tinha tudo para desistir, mas, curiosamente, foi a partir da sentença de ficar preso a uma incapacidade física que encontrou no Universo a força para nunca desistir da poderosa intenção de viver.


O Universo inquietou-o e fascinou-o. Continua a fasciná-lo. Um Universo indecifrável sobre o qual parece não existir total compreensão sobre a sua origem, num Universo infinito ou, apenas, enorme? Eterno ou só com uma vida longa? Dúvidas que lhe povoaram a mente e as certezas O Universo está a expandirse, diz o físico.


Criou a radiação Hawking, demonstrou evidências, lutou para as provar, fez cálculos, oscilou entre o espaço-tempo e, em cada pesquisa, o Universo continuava a provocá-lo, desafiá-lo, por entre teoremas, buracos negros, mini buracos, modelo padrão do big bang. Hawking continua a fascinar-se intensamente pelo Universo. O tempo é o movimento do pensamento, por isso o físico britânico sempre agarrou, saboreou e aproveitou a vida. Não sabe até quando mas, apesar da paixão, não tem pressa nenhuma de ir tocar no Universo.

O mundo da ciência ofereceu-lhe o asteróide 7672 Hawking

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SÓCRATES: DO GRITO DA VERDADE AO DO IPIRANGA


Esperei propositadamente uns dias para falar da recente entrevista, na SIC, feita ao Primeiro-ministro José Sócrates (a frio analisa-se melhor) e, reconheço, que não foi das suas mais brilhantes intervenções. Pelo tom de voz, por um visível cansaço, mais mental do que físico (provavelmente).


Também não me encantou a condução dos entrevistadores. Pela qualidade de profissionalismo que os caracteriza podiam ter feito melhor e martelar nos famigerados projectos que Sócrates assinou ou não, é irrelevante. Sobre isso o entrevistado já tinha respondido demasiadas vezes.


Falando francamente, preferia ter visto nessa noite o Primeiro-ministro, molhado até aos ossos, nas zonas afectadas pelo temporal. Se fosse em Espanha, por exemplo (já para não referenciar Nicolas Sarkozy, com ou sem Carla Bruni), lá estariam os Príncipes das Astúrias, junto aos angustiados, mostrando-lhes que estavam com eles, na hora do desespero. O povo precisa de sentir que não está só. Pouco adianta no momento, mas reconforta.


Não demorou muito tempo para que os ecos da entrevista da SIC se fizessem ouvir e se pudessem ler. Através da Rádio escutaram-se muitas, diversas e longas opiniões e, aí, lembrei-me da expressão de um determinado general romano que –parece- disse no seu tempo:

Lá para o Sul há um povo que não se governa nem se deixa governar…


Continuamos a ser assim! Por hábito, sina ou fatalidade, não deixamos de dificultar as sucessivas governações. Gostamos das que não temos e, quando as temos, já ansiamos pelo regresso das outras. Ainda hoje somos instáveis e, no fundo, não sabemos o que queremos. Temos é de nos sentir contra. É mau. Foi mau e será péssimo se não crescermos cívica e políticamente.


Falando de José Sócrates e Cavaco Silva, penso que são a hipótese certa que Portugal tem, hoje, para conseguir enfrentar os desafios do futuro. A reacção que se está a vulgarizar dos apupos e manifestações verbais, afrontando o Primeiro-ministro, em permanente desacordo (orquestrado do exterior e, por vezes, do interior) levar-nos-á à situação de qualquer dia podermos querer eleger um Presidente da República ou Primeiro-ministro e não existir ninguém credível a querer candidatar-se. É preocupante, qualquer dia ainda corro o risco de ser convidada!!!


Tenho uma opinião sobre o futuro político das presidenciais, por volta de 2015/17 (a esta hora não consigo saber datas correctas). Depois de Durão Barroso terminar o seu segundo mandato, será um potencial candidato. O seu trabalho pode não contentar uma vasta franja de portugueses (!), mas tem conquistado pontos a nível internacional. António Guterres, muito à sua maneira, está a acumular um silêncio político amorfo mas internacional, que facilmente é convertível em prestígio, em relações internacionais que ficarão bem a um Presidente (é humanista e, isso, é bom).


Entretanto, José Sócrates terá andado pela Europa a contabilizar conhecimentos e contactos. A levar a Portugal pelo mundo fora. A engrandecer-se politicamente, a aprender o toque subtil da maciez verbal que hoje, por vezes, peremptoriamente, ainda não domina. A obra feita e a situação de Portugal poderá já ser analisada à distância e, por ela, o ex-Primeiro ministro será um fortíssimo candidato a Belém. Luís Amado, sabedor e discreto, poderá ser a grande revelação política do futuro. Ele sempre teve uma intervenção correcta, mesmo brilhante, no desempenho das suas funções. Pode dizer-se que é um ministro presidencial. Um dia, poderá ser o locatário do palácio cor-de-rosa.


E quanto a Portugal? Por entre apupos de uns, a esperança de outros e reformas governamentais, vislumbramos um Portugal forte e moderno. O que temos agora? Que terrenos pisamos? Pois bem, Portugal está a ganhar forma e a deixar marcas firmes na política internacional Europeia. Tudo o que tem feito nos últimos anos, tem corrido bem. E, entretanto, poderão surgir condições para (finalmente) se desenvolver uma estratégia de política com os Palops e, aí, ficamos definitivamente, no centro da cena internacional, à nossa escala (pequena) mas com eficiência, identidade, iniciativa e capacidade que é mais vocação que obrigação.


Portugal está num tempo em que, se não recear as sanções de Bruxelas, deve empreender passos seguros com África, por iniciativa própria, sem esperar que a política internacional Europeia se defina objectivamente. É como dar o grito de Ipiranga, como o que formou o Brasil e agora formaria a Comunidade Mundial de Língua Portuguesa que os ingleses, americanos e agora russos e chineses dispensam e fazem com que não aconteça. Bruxelas não expulsará Portugal por isso e se quisesse penalizar a iniciativa estaria a enviar uma má mensagem aos Palops e, isso, a EU não quer! África apoiaria Portugal nessa iniciativa pioneira porque seria uma forma de ganhar mais hipóteses de entrar vigorosa na EU (União Europeia).


É necessária ponderação, sapiência, estratégia, política lúcida, para o êxito do projecto. E, aí, recordo novamente Luís Amado (Ministro dos Negócios Estrangeiros), ele que tem sido também um dos pilares do sucesso nas negociações de Portugal pelo mundo, seria um interlocutor (imbatível) com África. Neste sector não esqueço Durão Barroso, é que ele é o Presidente Europeu com mais prestígio e empatia junto dos Palops, desde o seu papel estruturante em Bicesse. Nada nos falta para nos aproximarmos de África. Está tudo a indicar que o devemos fazer, até, por exemplo… a necessidade absoluta que temos de o fazer de qualquer modo.


Falei das presidenciais que ainda estão longe, da necessidade de subirmos à Montanha Alta e os portugueses darem novamente o grito de Ipiranga. E o povo? Aquele que apupa governantes, que faz greves atrás de greves, aquele que se defronta diariamente com as dificuldades? As dificuldades são reais é verdade mas os portugueses, como disse o tal general romano, são potencialmente ingovernáveis, no sentido de apatia como Nação. Falta-lhes ambição, objectivos como tem Israel, por exemplo, Singapura, Dubai ou alguns novos e bons países do Leste. Estamos tão bem arrumadinhos num canto há 900 anos que não nos habituámos a competir para sobreviver como Nação. O centro da Europa sempre teve que lutar por causa de guerras e invasões e agora com mudança de sistemas políticos e fronteiras. E nós? Estáveis e conformados.


Reconheço que tem havido uma certa fragilidade na liderança governamental: ausência de explicações em certas decisões políticas. O povo tem de reconhecer em Sócrates (eleito democraticamente) o líder que tem a noção da verdade e que a pratica na condução do País. Lembro Teixeira dos Santos (Ministro das Finanças), meio carrancudo, não dá azo a argumentos, aplica o que pensa que tem de ser feito (por acaso até é sacar-nos a massa) mas conta a verdade. Toda. Uma vez. E segue em frente.


Contar a verdade foi o que Churchill fez para não perder tempo enquanto geriu a guerra; foi o que Gandhi também fez para não perder a oportunidade de agarrar a independência; é o que Al Gore está a fazer! A abanar consciências, já que o fim do Planeta não é tão distante como pensavam os cientistas. Há que modificar hábitos e mentalidades; Mandela também o fez, contou a verdade e teve sucesso com um dos povos mais guerreiros do mundo (os Zulus, que até nem eram da sua tribo). Soube deixar para trás as mazelas de um dos regimes mais injustos onde vigorava o apartheid.


À nossa escala, Sócrates só se devia preocupar em contar a verdade política em tudo e seguir em frente. E preocupar-se somente com as verdades que moldam o nosso futuro. Os projectos? Assinou? Não assinou? Há 20 anos? Isso é polémica a uma dimensão muito pequena que não deve interferir nem seu tempo nem na sua agenda. Bastava, na altura, um comunicado breve para a Imprensa .


Tem de contar a verdade: Portugal tem de aumentar, já este ano, a produtividade laboral. Tem de dizer a verdade, a que diz que é difícil gerir os grandes interesses e ao mesmo sanear mas, se lhe derem tempo, Sócrates fará mais do que já fez e fará a diferença: a que diz que vamos continuar a pagar impostos mas que também diz que passa a ser cada vez mais visível e transparente o que se faz com esse dinheiro.

Falar a verdade e não ter medo de falhar. A sua missão é conduzir o País ao futuro. Por isso, gostava muito mais de o ter visto encharcado na zona do caos, a olhar nos olhos dos desamparados e infelizes, mesmo que tivesse de escutar desabafos desagradáveis, do que vê-lo crispado frente a dois jornalistas que se esqueceram, num programa em directo, de colocar na mesa o tema da noite: as cheias!
*Acho que devo dizer que não votei em Sócrates

CHOVE EM LISBOA


Bastaram umas horas de chuva intensa (superior à precipitação de todo um Fevereiro normal) numa madrugada que não se esperava tão agreste, embora se soubesse ir ser molhada, segundo os boletins emitidos pelo Serviço de Meteorologia, para que a Grande Lisboa e os distritos de Santarém e Setúbal ficassem num caos medonho.

As consequências foram dramáticas, assinalando-se até agora a perda de uma vida, o desaparecimento de uma pessoa, na zona de Belas, 2000 mil participações de ocorrências, a presença de 2200 bombeiros ajudados por 900 viaturas e um helicóptero. Largas dezenas de desalojados, deslocados, prejuízos materiais ainda por contabilizar, sem falar do pânico e do desalento daqueles que sofreram as consequências de tal intempérie


No filme África Minha (uma jóia de Sydney Pollack), há uma parte em que Meryl Streep, que encarna na tela a personagem da escritora dinamarquesa Karen Blixten, na sua angustiada aventura (no Quénia) com a plantação de café (criada pelo marido sem o seu consentimento) que, desde o início, tinha tudo para não ter um resultado brilhante, derivado à escassez de água na zona e à altitude em que fora plantado.


Tentando salvar esse investimento onde fora aplicado todo o seu dinheiro, Karen faz de tudo o que humanamente é possível, pensando triunfar contrariando a Natureza. Com a ajuda dos muitos empregados da fazenda, consegue ter uma reserva -uma espécie de lago artificial- com água desviada de um rio próximo.


Durante uns tempos a plantação é regada e, no seu tempo, os bagos de café começam a formar-se. Tudo parecia correr bem até uma madrugada em que a reserva de água, desviada do seu curso se revolta e salta vencendo (sem esforço) a barreira de sacos, pedras e areia que a aprisionava. Todos lutavam para travar essa fúria da Natureza mas aí, completamente esgotada, Karem põe um pé sobre uma rocha e, encharcada, exausta, diz:


Chega. Parem. Não adianta


Derrotada, olha para a água rebelde que quebra todas as barreiras e, vitoriosa, sai (saudosa) ao encontro de um leito que lhe pertence.


Esta água nunca deixou de viver em Mombaça!


Assim é Lisboa! Aprisiona o curso das águas debaixo de cimento, de alcatrão. Não quer respeitar-lhe nem a força nem o direito e, o resultado é idêntico ao das águas que a baronesa Karen não conseguiu prender na sua fazenda em África, no sopé das montanhas Ngongo. É assim em todo o Globo! Não há ninguém neste pequeno ponto flutuando no Universo que consiga vencer a Natureza.


A 26 de Julho de 1985 entrevistei para a revista “Mais” (de Carlos Cruz), o arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles. A extinção do Ministério da Qualidade de Vida era recente e o seu ex-ministro considerou, na altura, ser uma vitória para determinados empórios.


O contra-poder que exercia, disse Ribeiro Teles, não interessava aos grandes negócios de betão, da construção civil, da celulose. Era a “voz” da consciência que se tornava urgente abafar. Foi um Ministério que começou a afirmar-se em diversos campos onde o País estava numa situação de autêntico caos que permitia toda a especulação com o solo urbano.


Foram horas de um diálogo interessantíssimo, em 1985. Já lá vão 25 anos e, hoje, ao reler o trabalho reconheci-lhe actualidade. Diversos temas foram abordados e, por exemplo, quando lhe perguntei sobre a criação da Reserva Agrícola Nacional, disse:


-Protege os melhores solos agrícolas e não permite que eles tenham outro uso que não o da agricultura. Foi uma lei muito positiva e evitou graves desastres ao País. Claro que nem sempre foi cumprida, muitas vezes foi torpedeada, mas existia e, era preciso acabar com ela…


Falou da sua luta em tentar organizar o sistema hídrico das linhas de água e do supremo interesse dos Serviços Hidráulicos em apenas fazer obras hidráulicas e não se interessar pela regularização desses cursos de água.


Falou da desertificação das povoações que se iria verificar daí a 20 anos (acertou em cheio). Apontou para a futura ameaça às paisagens protegidas e, sobre Lisboa, fez reparo ás torres que despontavam quando a Europa estava a adoptar outro tipo de construção e lembrou o relatório que a Alemanha tinha publicado, lembrando os efeitos negativos para quem habita para lá do sétimo andar.


Não esqueceu de referenciar o perigo das construções feitas sobre os cursos de água. Da gravidade que se estava a fazer na Baixa de Lisboa, impermeabilizando as terras, com lojas, garagens, túneis. A falta de espaços verdes.

Não deixam respirar as terras, repetia frequentemente.


Falou muito e, claro, falou bem. O arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles é, ainda hoje, um expert na matéria e sobre o temporal da madrugada que se abriu impiedosamente sobre a Grande Lisboa, Santarém e Setúbal não sei se dirá, mas é capaz de pensar:


-Com tanta asneira repetida, ano após ano, quando chove invulgarmente, esperam o quê?


TRÊS PRESIDENTES NA CASA BRANCA


Tenho um amigo que, passados anos, ainda mantêm intacto o prazer de relembrar a sua dinâmica, creio, passagem por umas eleições presidenciais americanas. Devem ter sido mesmo muito marcantes e emotivas já que ele vibra sempre que recorda o acontecimento.


Não garanto (e como não sei por qual dos continentes anda, não posso confirmar agora) mas creio que pertenceu à equipa do republicano Richard Nixon, advogado, oriundo da Califórnia, que viria a ser o 37º presidente dos EUA ( 1969/ 1974).


Curiosamente dos 43 presidentes já eleitos (o primeiro -1789 / 1797- foi George Washington, um fazendeiro e militar da Virgínia), Nixon foi o único que renunciou ao cargo, após o Caso Watergate, abrindo caminho a Gerald Ford (1974/1979), um republicano do Nebraska e, tal como ele, Andrew Jackson (1829 /1837), Harry Truman (1945 /1953) e Ronald Reagan (1981/1989) foi vítima de atentado.


Imagino que na Patagónia ou em Katmandu esse meu amigo deve estar em alerta vermelho. È! Sempre que surgem novas eleições nos EUA ele volta furiosamente às notícias, previsões, intuições. Faz gráficos, devora as biografias, compara os candidatos mi-nu-cio-sa-men-te e sofre como gente grande. E a 4 de Novembro, quando 200 milhões de eleitores votarem na escolha presidencial (é muito confusa a forma de eleição, passa pelos delegados ligados aos partidos), ele vai roer as unhas até ao cotovelo. Seguríssimo.


Vá lá saber-se porquê se nem sequer tem nacionalidade americana (se o fosse, tivesse 35 anos e vivesse há mais de 14 anos no país, podia candidatar-se… ). Só pode ter sido das noitadas frente às televisões, das sondagens, dos quilómetros de páginas escritas, das frenéticas viagens, dos garrafões de coca- cola, de litros de café (que detestava) . Acho que não tinha tempo para comer, dormir, tomar banho, mas sempre ia dizendo que na sede, nos comícios, havia uma louras de parar o trânsito.


Por isso, tenho muita pena que ele não esteja em Portugal assim, não tenho horas garantidas de acesas discussões. Mas como o tema me interessa vou falar nele, salvaguardando que não sou, nem de perto nem de longe, uma expert na matéria. Curiosa e estudiosa. Apenas isso.


No momento, o que de início parecia impossível, Hillary Clinton (primeira dama dos Estados Unidos de 1993/2001) não está desafogadamente sorridente nas tabelas das preferências do eleitorado. Pelo contrário, quem sorri (abertamente) é o inesperado senador do Illinois de nome Barack Obama que nos discursos (muito bem escritos por um jovem de 26 anos, cujo nome não recordo neste momento), distribui empatia pela assistência, onde os jovens estão a ser o seu grande e inesperado trunfo, tal como a sua frontal oposição à guerra do Iraque que quer ver terminada.


Hillary, por seu lado, apoiou Bush na invasão e agora sente o peso desse calcanhar de Aquiles que lhe cobra dividendos, embora a candidata faça questão de deixar bem vincada a ideia de que quer trazer para casa o mais rapidamente possível as forças estacionadas no Iraque. Este facto é, sem dúvida, uma fragilidade (que alguns na época, mal informados e com boas intençõs, caíram).


O desfecho de 4 de Novembro é imprevisível, penso que estas eleições para a Presidência da América são as mais complicadas e confusas dos últimos tempos e, em minha opinião, o jogo está assim no tabuleiro:


Metade da América não quer Hillary (inteligente, forte, segura) que, à partida, não esperava tão alto nível de rejeição por parte dos americanos.

-A outra metade não quer Obama (jovem, visionário, carismático e excelente orador), que surpreendeu pela positiva, apoiado por uma campanha estonteante e conquistando apoiantes de peso, em sectores diversos.

O republicano e herói de guerra John McCain (o mais idoso candidato à Presidência, ultrapassando mesmo Reagan), defende a continuação das tropas americanas no Iraque e tem a “bênção” de Bush (os americanos estão saturadas da sua Administração), mantêm a esperança de vencer os democratas.


Até agora o inesperado brilho de Obama tem ofuscado Hillary, mas tanto um como outro têm trunfos na manga, traduzidos também nos dólares angariados para as campanhas e, também aí Obama, no momento, conseguiu mais contribuições do que a sua rival.

Mas as eleições americanas são um mundo! Nos bastidores tecem-se acordos de última hora, “cobram-se” lealdades, lembram-se promessas, há verdadeiras maratonas nos corredores que levarão um dos candidatos à Casa Branca.


Serão duas personalidades distintas na corrida presidencial: a de Hillary Clinton e Barack Obama. Apesar dos americanos estarem fartos de “dinastias” por capricho dos deuses ou voltas do destino, Bill Clinton será o primeiro-cavalheiro da América, Barack Obama vice-presidente (um dia será presidente) e Hillary Clinton, a presidente.

Antevisionando 4 de Novembro de 2008, recordo o 4 de Julho de 1776 onde 56 homens assinaram a Declaração da Independência dos Estados Unidos da América, em Filadélfia e, para celebrarem o acontecimento brindaram com Vinho da Madeira.


Na altura, brindarei. O Mundo precisa de três presidentes na Casa Branca, os estragos foram demasiados.


PERFEITA…PERFEITA


Tentar, pode, mas não adianta e, se pensar que será capaz um dia de agradar a todos, acabará desiludida. Mesmo que seja um modelo de virtudes; mesmo que entenda o sorrir do Universo e seja francamente tolerante, altruísta, generosa; mesmo que saiba de cor a vida e a obra de Madre Teresa de Calcutá e se emocione verdadeiramente com a descompostura dos acontecimentos que grassam no mundo e chegue ao ponto de chorar, frente aos noticiários que entram em sua casa e lhe agridem o coração e a sensibilidade.

Mesmo que domine a Teoria da Evolução de Darwin ( fascinante, actual e polémica) e seja uma curiosa permanente pela vida de Newton, Einstein, Lincoln. Mesmo que se emocione e se transcenda frente ao quadro de DaliCristo na Cruz– e sinta que a poesia de Florbela a eleva espiritualmente e a deixa a pairar noutras dimensões existenciais.

Mesmo que admire até à exaustão os voluntários, sempre presentes quando os infortúnios acontecem, em qualquer parte do Globo ou ao ao virar da esquina mais próxima, numa instituição que abre as mãos aos desprotegidos da sorte, em gesto de acolhimento, dizendo-lhes sem palavras: vocês, não estão sós.

Mesmo que se deslumbre quando se lembra que tudo começou com o pó das estrelas e dez mil biliões de biliões de átomos e seja uma acérrima defensora dos Direitos dos Homens, das Crianças e dos Animais. Mesmo que seja um sumatório positivo de inegáveis qualidades: trabalhadora, séria, fidelíssima, sempre pronta a ajudar, sem esquecer de sorrir, de cumprimentar, de agradecer.

Mesmo que faça bem e com gosto a reciclagem e troque as lâmpadas antigas pelas de baixo consumo. Mesmo que se esgantanhe toda para ajudar a marcha do mundo a tapar o buraco do ozono e contribua para a continuação viva da Amazónia e para instituições de solidariedade, além de ter os impostos em dia e uma árvore com o seu nome, na reflorestação do Gerês, seja madrinha de uma águia e esteja a pensar em defender as éguas da serra da Malcata.

Mesmo que humanamente não possa ser mais autêntica, mais perfeita (perfeita…perfeita), amiga, não vai conseguir agradar a todos!

Esopo, há 2500 anos, numa das suas fábulas escrevia essa impossibilidade, através de “O Velho, o Filho e o Burro“. Ingenuamente tentaram, para não chocar a moral alheia, seguir as instruções que cada um, conforme iam passando, sugeria. Sem resultado, não conseguiram encontrar a solução que contentasse todos. Cada cabeça, sua sentença.

Mas que isso não seja impedimento para ser cada vez mais perfeita(perfeita…perfeita). O importante é que a sua conduta esteja dentro dos padrões e dos códigos de valores que a sua consciência aprova. Não se atire ao mundo para ganhar a guerra, conquiste (por vezes) uma batalha e já está a ser uma boa cidadã universal.

Acima de tudo e de todos, viver é um acto de amor. Assim, é uma exigência de tolerância.

Entender, aceitar, os que por defeito ou feitio estão sempre contra tudo e contra todos, demonstra da sua parte elevação de carácter. De amor pelo próximo. E já que que estamos no tema, lembre-se que está a chegar o Dia de São Valentim (gostava que fosse de Santo António). Apesar de termos um santo casamenteiro, nosso, disputado aguerridamente pelos italianos, cada vez mais o São Valentim, que não deve ter culpa nenhuma, surge em todo o mundo, é verdade, com uma força comercial tremenda.

Se os comerciantes, que já tiveram melhores dias, melhores vendas, aplaudem entusiasticamente a ideia e as montras são autênticos corações palpitantes, gorduchos e vermelhos, estas comemorações para a igreja católica não são tão relevantes.

Como começou a tradição? Não se sabe bem. Para os anglo-saxónicos a festa é antiga (nos Estados Unidos apareceu nos finais do século XVIII), embora os britânicos já no século XVII a festejassem. Na Itália, no ano 230, o bispo Valentim pode ter sido a origem desta onda, mas a França “culpa” os Vikings pelas primeiras trocas de prendas entre os namorados. Seria?

Importante é o amor. Se ele ocasionar sensações de alegria e afecto, materializado numa prenda, é ouro sobre azul. Mas, mais do que o valor do presente é a ideia de dar, de partilhar emoções -num dia que os homens decidiram marcar no calendário para falar de namorados- que enaltece a capacidade sentimental.

Siga a tradição. Sinta amor ao receber uma rosa vermelha ou quando der o tal anel há tanto tempo desejado. Sinta como a vida pode ser simples e empolgante.