Archive for Março, 2008

CONCERTO 21 DE MOZART


Hoje, é tempo para navegar na noite, devorar o silêncio no jardim inebriante e envolvente onde as luzes veladas e indirectas esboçam espaços inatingíveis que olhamos, sentadas, nos bancos de bambu, polidos pelos brilhos dos imensos e poderosos luares. Não há intenção para desafios nem se esperam respostas às dúvidas que, por vezes, sufocam os dias. Apenas um estar doce, silencioso e macio numa abundância espiritual que aquieta e restaura emoções fragilizadas, que ensina a explorar, dentro de nós, a riqueza, o mistério, arquivados nos centros da memória.

É tempo certo para contemplar -num ritual profundo, às vezes adormecido- e aceder ao impulso de deslizar pelo manto da noite, sem sair do jardim de buganvílias e rosas de veludo, em contacto com dimensões que inquietam e fascinam. É tempo intimista, gratificante, pleno de magia, convidando à reflexão no santuário iluminado onde se domina a vida, com entusiasmo e pensamentos disciplinados, como senhores inspirados de festivos destinos. É tempo de redescobrir e despertar a plenitude da existência que gostávamos fosse sábia e força indomitável a guiasse. Há muita luz nas noites de interiorização, passadas nos jardins de brisas ondulantes que antecedem as alvoradas. Que não deixam de ser nossas, nos voos dos silêncios e dos impulsos.


Há noites deliciosas, especiais e únicas, envoltas na imortalidade de Mozart, escolhidas espaçadamente para não se perderem na banalização e nos soarem eternamente sublimes. Escolhem-se nas noites brilhantes de brisas mornas, sentadas nos jardins inebriantes de luzes indirectas e veladas. Cerram-se os olhos, libertam-se os músculos e os sentidos e, enlevadas, começamos a escutar os acordes lentos do Concerto para Piano nº 21 (segundo andamento) e, a partir daí, somos aves, folhas, nuvens, estrelas, templos, brilhos cintilantes, pétalas de rosa, chama, braços abertos aos universos.


Pára a brisa, pára o movimento da noite e da Terra. O som emotivo de Mozart invade-nos os sentidos, na subtileza, no lirismo pujante de serenidade e, cedemos ao diálogo entre o piano e a orquestra que nos transporta arrebatadora e intensamente ao centro do tornado da nossa saudade.


-Ouçam bem o momento em que o violino e a viola entram para executar o primeiro solo. Se não sentir arrepios, tente novamente; se sentir, é normal. Dificilmente há coisa mais bela
(citação de Milton Ribeiro).


LÁ…ONDE NASCEM OS DEUSES!


Andam a mexer nos meus sonhos e nas minhas inquietações. Há anos que fujo espiritualmente para Lhassa (Lugar dos Deuses), um santuário onde as feridas da vida saram, na tranquilidade dos lugares de silêncios profundos, nos cumes das serenidades e dos deuses. Os deuses nascem ali! No tecto do Mundo (encravado nas encostas dos Himalaias, entre a China e a Índia), para contemplarem a sublimação da existência humana que deveria ser esclarecida e gratificante.

Não sou budista (400 milhões de seguidores no mundo inteiro), mas aprecio a serenidade que essa filosofia de vida irradia e, sem nunca ter posto um pé no Tibete e, consequentemente, no Palácio Potala, o Branco e o Vermelho (declarado pela UNESCO, em 1994, Património Cultural da Humanidade), majestoso no cimo da Montanha Vermelha, a roçar as nuvens, nos seus 3.700 metros acima do nível do mar, sinto conhecer-lhe cantos, recantos, paredes, escadarias, patamares, muros, paisagens, janelas. Tantos foram os filmes que vi, os artigos que assimilei, os vídeos que colecciono.


Os distúrbios ultimamente ocorridos (iniciaram-se a 14 de Março), com visível agressividade, provocam angústia e preocupação a nível mundial já que a situação pode transformar-se num rastilho de pólvora de dramáticas consequências. O povo tibetano há 100 anos que sente a supremacia chinesa no seu território e o Dalai-Lama (quer dizer Oceano de Sabedoria), Prémio Nobel da Paz, em 1989, está exilado há 49 anos na Índia. Deixou Lhassa a 17 de Março de 1959 e, nos últimos anos, crê-se, que tem tido conversas informais com as autoridades chinesas na procura de solução para o conflito, embora a China o indique publicamente como instigador das recentes rebeliões. As divergências, as lutas, as revoltas no Tibete e as sistemáticas ocupações por parte da China têm sido, uma constante. Só que, desta vez, dada a proximidade com a realização dos Jogos Olímpicos (criados na era moderna, em 1896, em Atenas, pelo barão francês, Pierre Coubertain. Atletas do sexo feminino só participaram em 1900), em Pequim, a situação atinge contornos de difícil resolução.

Se por um lado, quando foram assinados os protocolos necessários para a realização dos Jogos, na China, em 2008, se sabia da situação no Tibete e não se ignorava que este país, a China, não é um salutar exemplo de defesa dos Direitos Humanos, a verdade é que se disse “sim” a essa mesma realização. Os acordos comerciais continuam entre muitos e muitos países e boicotar este evento desportivo que já percorre os caminhos do Mundo, há mais de 2.500 anos, a partir da Grécia Antiga, cidade de Olímpia, no Peloponeso, não é sob ângulo algum uma medida a tomar, dado o seu prestígio e visibilidade. Claro que o povo tibetano encontrou neste Março, uma oportunidade única de fazer ouvir a sua voz pelo mundo, precisamente pela proximidade da realização Olímpica, na defesa da bandeira que é a libertação do seu país.

A China não é flexível mas teme, à sua maneira, o boicote e sabe que neste momento, em teoria, pouco joga a seu favor mas, na prática, é uma potência imensa e isso pesa no mundo. Como terminará a situação Lhassa/Jogos 2008? A importância e o impacto dos Jogos Olímpicos serviu já para confrontos e reivindicações políticas de gravosas consequências. Foi o caso, em 1972, em Munique, do massacre sobre atletas e membros da comitiva de Israel. Em 1980, 1984, verificaram-se boicotes e em 1996 (Atlanta), um atentado à bomba. Só que as estruturas já existentes e as que se estão a concluir na China para a realização dos Jogos, diz quem já viu, são absolutamente espectaculares. E o governo de Pequim quer abrir as portas e mostrar ao mundo o seu poder e capacidade de realização. Para já, pagou uma verba à família das vítimas ocorridas no Tibete, e assumiu todos os compromissos nos tratamentos hospitalares aos feridos. Convenhamos que é pouco.

A situação é, portanto, de natural expectativa. Que não se verifiquem extremismos, que a moderação mova decisões sábias, que os objectivos da Grande Festa do Desporto, que reúne milhares de atletas, vindos de centenas de países, sirvam para aquietar energias que devem ser orientadas na alegria, na paz e na beleza.

O mundo precisa de acreditar em Pequim.

O CHARME DESCONHECIDO DE MARIA


O Presidente da República, Cavaco Silva, na sua recente viagem a Moçambique, ia correndo o risco de John Kennedy ( um dos melhores Presidentes que o Tio Sam já teve) quando ao visitar a França e, enfrentando o fulgurante e um pouco inesperado sucesso de sua mulher, Jacqueline, junto da população e círculos oficiais. Charles de Gaulle e o público renderam-se aos seus encantos e ao seu francês e a revista Time revista escreveu:

-Havia também aquele companheiro que veio com ela… (o presidente).

Até mesmo John Kennedy brincou com a situação ao dizer, creio que no discurso de abertura de um banquete oficial, não tenho a certeza.

Eu sou o homem que acompanhou Jacqueline Kennedy a Paris e gostei muito!


Correu bem a viagem do nosso Presidente a Moçambique e apreciei a forma como, ali, foi recebido. Apreciei-a no seu todo e deliciei-me com a felicidade contagiante do casal presidencial que não se inibiu de a mostrar nos três dias da visita oficial (24 a 26 de Março), onde foram abordados temas relevantes e se abriram novas directrizes (com Cavaco Silva foram 45 empresários) avivando ideias para uma colaboração bilateral mais vigorosa entre Portugal e este país do Índico, vivendo já uma democracia consolidada. A visita de Cavaco Silva (primeira a um país africano de expressão portuguesa) foi acompanhado pelos ministros dos Negócios Estrangeiros, Defesa, Educação e Cultura.

Sucederam-se cerimónias, encontros, discursos e promessas de cooperação mais estreita e vigorosa. O Presidente não deixou de agradecer ao seu homólogo Armando Emílio Guebuza e ao povo moçambicano a defesa da Língua Portuguesa, defesa que fazem quando a falam, mantendo-a viva. O futuro não se faz com os fantasmas do passado. Ontem, fomos colonizadores; hoje, devemos ser parceiros. Folheando o Livro da História não se encontram países perfeitos, isentos culpas de fragilidades e de feridas. A solução harmoniosa, equilibrada, sensata e actual será a de, em conjunto, desbravar obstáculos que ainda possam existir a nível de bloqueios (de toda a espécie) que dificultem a interligação no tempo já de novos ciclos e novos desafios.

Antecedendo essa visita oficial o Presidente, acompanhado pela mulher, quatro netos e dois filhos, passaram uns dias (por certo deliciosos) em Bazaruto, destino de rara beleza, numa ilha rodeada de azul onde apetece mergulhar. Por isso chegaram bronzeados e felizes -estava lá, na Alma, era impossível disfarçar- a Maputo (ex-Lourenço Marques), recebidos com a rigidez protocolar e, simultaneamente, vibrante calor humano. E foi aqui que começou a delinear-se o êxito (inesperado) que sua mulher, Maria Cavaco Silva, professora de Língua e Cultura Portuguesa poderia vir a ter nesta visita. Digo inesperado porque, sinceramente, só há muito pouquinho (inho mesmo) é que comecei a encontrar na fisionomia da primeira-dama (eu sei que detesta o termo) uma abertura humana que me despertou interesse. Perdoe-me (como se me fosse ler! Delírios de uma bloguer, às três da madrugada…) mas achava-a, como vou dizer isto?

Achava-a mandona, antipática, com mau feitio (posso dizer carrancuda?), com um péssimo gosto, um penteado sem it, uma maquilhagem nada inspirada. Sabia do seu valor cultural e pronto, ficava-me por aqui. Longe de mim pensar que, um dia, inesperadamente, romperia essa espécie de casulo e, por artes mágicas de alguma equipa sabedora do ofício, a mulher do Presidente da República ressaltaria radiosa para as páginas dos jornais. E a primeira das suas muitas conquistas oficiais começou em Moçambique (o mundo que a aguarde), um país queridíssimo para o casal que ali viveu nos anos 1963/65, onde passou a lua-de-mel e dois primeiros anos de casados. Quando nesta visita oficial, no segundo dia, Maria Cavaco Silva voltou à escola (Secundária Josina Machel, ex-Liceu Salazar), onde há 44 anos deu aulas de português e francês, a emoção e a alegria, foram patentes. Foi vibrante e foi autêntica. Conquistou sem reservas e sem esforço.

-É com uma grande emoção, uma carga enorme de afecto que regresso aqui hoje. Só me apetece chorar de alegria…


Foram umas férias de Páscoa e três dias de visita oficial ao país de coração (do qual, hoje, têm a Chave da Cidade) deste casal de algarvios, actuais locatários do Palácio de Belém que, apesar das décadas já passadas, lembram a emoção dos tempos vividos em Moçambique, onde o Presidente cumpriu o serviço militar, da aventura de atravessarem o país num carro que não era topo de gama, dos filmes do desconhecido realizador Cavaco Silva que fazia tudo: guião sonorização, montagem, diálogos etc., para estar em contacto com a família. A saudade é verdadeira e a recordação daquelas paragens do Índico serão indeléveis. Seguramente.

-O nome da nossa filha (Patrícia) surge da predilecção que a minha mulher e eu tínhamos por uma rua em Maputo, cheia de jacarandás (quando florescem é uma sinfonia envolvente de lilás), que se chamava rua Princesa Patrícia, disse Cavaco Silva.

Por isso, seguindo os ecos do sucesso da viagem e do casal e, principalmente do clima encantatório vivido e transmitido por Maria Cavaco Silva, até então, penso, mostrando-se (apenas) risonha ao lado do marido e pouco mais do que isso, creio que este abrir de asas, num voo prometedor pode, algum dia, obrigar o Presidente a confidenciar mais ou menos assim:

-Eu sou o homem que acompanhou Maria Cavaco Silva a…(?) e gostei muito!


ESTA GRÉCIA DEIXA-NOS GREGOS!


Pronto, apagaram-se as luzes da Arena de Dusseldorf (Alemanha) e os trinta mil espectadores rumaram às suas casas. Vinte e tal mil vestiram-se de azul e branco e vibraram com mais uma vitória da sua Selecção (Grécia). Sete mil eram emigrantes portugueses que, parece, escutaram os apelos de Scolari e fizeram-se representar em número superior ao inicialmente previsto. Sofreram mas não desanimaram e os seus gritos de apoio ecoaram pelo estádio, apesar de só explodirem verdadeiramente de alegria quando aos 75 minutos o golo de raiva do capitão Nuno Gomes (com uma assistência perfeita de Hugo Almeida), entrou na baliza da equipa adversária. Este foi o primeiro golo da época 2008 do avançado do Benfica que, diga-se, fez com Hugo Almeida uma excelente parceria, neste encontro marcadíssimo pelas ausências de Ronaldo, Deco, Petit, Nani, Maniche, Bosingwa.


No decorrer do encontro amigável, Simão sairia lesionado e entraria em campo João Moutinho que trouxe chama à partida, da qual ia saindo com a cabeça partida quando chocou em voo de águia com Karagounis (ex-benfiquista). Aliás, foi ele todo que marcou os dois golos da Grécia, em livres directos, que iam provocando um piripaque a Ricardo, excessivamente deslocado, que (parece) nem se mexeu ao ver a bola passar. Não estava nos seus dias. Acabaram-se os desafios a feijões e agora espera-se, no Verão, o emotivo e dificílimo Euro 2008 que vai agitar muitas almas e pulverizar emoções. Há 12 anos que não ganhamos à Grécia, essa matreira equipa que no brilhante 2004 nos atirou para o lugar de Vi-Campeões e eles quedaram-se (descaradamente, digo eu) com a majestosa taça e título de Campeões, facto que ainda hoje nos provoca pele de galinha. Perdemos, é verdade (é uma realidade que se vai tornando comum, mas…) mas, senhores, somos o 4º classificado no Campeonato do Mundo e Vice-Campeão da Europa. Temos peso, não? Antes do início do jogo já se sabia que ia ser difícil. A nossa Selecção estava desfalcada de jogadores de peso e a Grécia, como avisava Helder Postiga, antes do encontro:

-Não é muito diferente da selecção de 2004. Cria muitos problemas


E não é que criou! A nossa (querida) Selecção que estreou os novos equipamentos estava elegantérrima. A cor é linda. O corte é impecável e o cair do tecido é excelente, mas o Karagounis estragou-nos a festa. No banco, Scolari estava calmo, muito calmo, contrastando com Otto Rehhagel (seleccionador grego) que parecia movido a pilhas Duracell. Portugal começou mal o jogo e sofreu o impacto do primeiro golo. Só a entrada de Moutinho veio dar nova dinâmica, movimentação e posse e controlo de bola. É justo recordar que Miguel Veloso e Moutinho foram os melhores jogadores da primeira parte, Hugo Almeida criou embaraços aos gregos, Miguel, como lateral direito, cumpriu. E, Ricardo Carvalho (como eu gosto dele), voltou a ser um Senhor em campo, em toda a partida. Todavia, o trabalho da Selecção, no seu todo, não chegou para a desejada vitória. O talentoso Quaresma (que Mourinho parece querer levar para o Barça) não esteve no seu melhor. Sobre este encontro amigável o seleccionador português, disse:

A eficiência da Grécia foi melhor do que a nossa! É um martírio! Mais uma vez perdemos. Fazer o quê? Mas, neste encontro, ganhámos um ou dois jogadores para o Euro…

Mistério. A quem se referia Filipão? E saber? Moutinho (dinâmico), Veloso (impetuoso)? Recapitulando: bom seleccionador, temos. Excelentes jogadores, quem duvida? O que nos falta? Vitórias! Pois é e, aí, lembramo-nos de Carlos Queiroz, o português que é treinador-adjunto do Manchester United, adjunto de Fergunson que, qualquer dia, vai andar calvo como um ovo graças à aposta feita com Cristiano Ronaldo, quando pensava que este não marcaria 30 golos. Pois! E, além de careca, ainda terá de pagar uma bela quantia de libras ao nosso Madeirense de ouro. Voltando a Queiroz, que tem alguns dos melhores pontas-de-lança da Europa, disse (não gostei nem do tom nem do timing):

-Portugal não é equipa favorita no Europeu. É gritante a questão do ponta-de-lança que tarda em ser resolvida. Pauleta foi uma excepção…


É! Pauleta foi realmente o melhor marcador do futebol português e , ainda, não encontramos substituto, mas há quem possa dizer isso (não é que não seja verdade) com altivez, porque pode. Tem de se ter classe.

Pois! Mas quem marca golos no Manchester é o Cristiano Ronaldo, que não é ponta-de-lança… Expressão de Luiz Filipe Scolari, Seleccionador Nacional


A prová-lo lá estão os trinta e tal golinhos do Ronaldo que vão deixar o Fergunson careca. Olha se ele, o Ronaldo, fosse ponta-de-lança!


O SOL LARANJA NO CAIS DO PIDJIGUITI


…Catarina chegou ao aeroporto de Bissau, vinda de Luanda. Quando se encontrou na placa voltou a sentir o contraste poderoso (sentido já na sua primeira deslocação à Guiné) entre a terra vermelha e os troncos suados dos negros que trabalhavam sob o sol ardente e, impressionou-se com o vigor das imagens. O calor e a humidade eram de valores altos e incomodativos e, rapidamente, sentiu a desagradável sensação de pele pegajosa. Ultrapassada a pequena gare apanhou o jipe que esperava pela jornalista e nele fez o trajecto até à cidade. Foi um percurso demorado feito numa estrada de terra batida. Deliciada, voltou a confirmar que o cenário continuava exótico e belíssimo.

A Guiné é linda! Sente-se aqui o palpitar e o vigor do coração africano. Tudo é genuíno, de uma pureza comovente -Pensou Catarina enquanto admirava a paisagem que a envolvia.


Os miúdos banhavam-se nas celhas e as lavadeiras, com saias de longos e coloridos panos, mantinham o peito descoberto. As mulheres e os homens guineenses sempre foram de uma elegância impressionante, tinham o porte de príncipes. As silhuetas longuilíneas de corpos esculturais pareciam ter sido esculpidos por artista. Tinham um porte naturalmente majestoso. As mulheres, com o ancestral hábito de trazerem os filhos às costas, adquiriram uma postura própria dos grandes manequins do internacional mundo da moda.

Catarina voltou a sentir os activos cheiros da terra, das flores, no ar que respirava. Odores inebriantes, únicos, nada se lhes comparava. Respirou profundamente e voltou a deslumbrar-se. Viu as cubatas de colmo, construídas com rigor e a forma como se dispunham no terreno. Encantou-se com o percurso até ao asfalto, à entrada da cidade. E foi aí que um episódio impensável se tornou numa hilariante realidade Dois chimpanzés, à beira da estrada pediam boleia às viaturas militares que passavam (as civis não eram escolhidas).

Não é possível. Pensou Catarina

– Deve ser insolação! Boleia?


Eles lá estavam, tranquilamente, do lado direito da berma. Catarina tinha-os visto saltar de um outro jipe e atravessarem a estrada. Juntos e decididos preparavam-se para regressar, fazendo o percurso inverso. Foi nessa altura que um dos chimpanzés bateu com força no capou do jipe em que a jornalista seguia. O motorista parou e, naturalmente, deixou-os entrar. Eles fizeram-no calmamente e, quando se sentiram confortáveis, olharam para trás e, num gesto rápido, estenderam as mãos a Catarina, num largo cumprimento. Catarina riu abertamente.

-Estou na Guiné, voltei a casa!


E não parou de rir, facto que não agradou nada ao chimpanzé macho e se não fosse a rapidez do condutor a agarrar-lhe a palma da mão, Catarina tinha levado uma forte e sonora bofetada.

-Isto não me pode estar a acontecer. É sonho! Não, miragem. Ninguém vai acreditar nisto, se eu um dia tiver coragem de contar.


Acabou por saber através do condutor que aquele era o comportamento normal do casal de chimpanzés, conhecidos por todos os militares de Bissau. Eram uns animais simpáticos, por vezes até sorridentes (mostravam abertamente os grandes dentes amarelados como se estivessem a troçar do mundo) e tinham nítidas preferências sobre as viaturas que escolhiam. Se andavam nas camionetas era por não haver alternativa porque os jipes descapotáveis (detestavam quando lhes colocavam as lonas) eram, decididamente, os preferidos. Comiam bananas, papaias e adoravam cajú. Por isso, muitos soldados iam fornecidos com esses frutos para melhor apreciarem tão insólita companhia. Todavia, havia uma regra que não ousavam esquecer: ninguém se podia rir! Eles não o permitiam. E quem o ignorava, esquecia ou queria testar a realidade, tinha já ido parar com as costas ao chão e com a cara a ferver, tal tinha sido a força da bofetada dada. Sorrindo (para dentro), Catarina sentia-se feliz e exultante com o inebriante cheiro de África a entrar-lhe na alma. O calor intenso e a humidade davam uma sensação desagradável é verdade, mas África, é África!

-Desconcertante, magnetizante, electrizante. Apaixonante! -Disse Catarina para si própria. apetecendo-lhe gritar com força para que a ouvissem bem.

-África é isto: apaixonante. Conquista-nos no primeiro segundo e prende-nos a vida inteira.

Chegou ao hotel, preencheu a ficha e esperou que o empregado levasse a bagagem ao quarto. Este era amplo e tinha uma grande ventoinha no tecto. A cama era larga e sobre ela caía um mosquiteiro de tule branco como se fosse um leve véu de noiva. Catarina sentiu-se bem. Depois de abrir as malas dirigiu-se à casa de banho onde tomou um longo duche que a deixou fresca. Em seguida, optou por dar uma volta pela cidade, enquanto ainda era dia. Revisitar a Casa Branca, que vendia desde agulhas a carros, era apetitoso e essa visita foi das primeiras coisas que fez (tinha de fazer) no seu regresso a Bissau. Já na rua, olhou para recantos dos quais se lembrava e descobriu uma varanda de um prédio colonial, em tons de um bonito verde e branco, onde funcionava a sucursal do hotel onde tinha dormido anteriormente, já que na altura a sede estava esgotada. No tranquilo deambular pela cidade notou uma desusada movimentação facto que, por certo, se ficava a dever à cerimónia oficial a realizar no dia seguinte, no aeroporto de Bissau, que se preparava para receber o novo Governador e, Catarina, estava destacada para fazer a reportagem. De novo em terras guineenses, tinha apenas um dia para estar na capital. No dia seguinte apanharia a avioneta para Bolama.


Para andar serenamente pelas ruas que ainda lembrava, mitigando a saudade desse fascínio africano, Catarina escolheu um vestido azul claro, cingido ao corpo, de corte direito com um largo decote nas costas que quebrava a simplicidade do modelo. Fresca e cheirosa, caminhou pelas ruas de Bissau onde, inesperadamente, viu a chegada de um contingente de tropas portuguesas recebidas pelos habitantes da cidade com grande calor humano. Deitaram flores, bateram palmas e dançaram, expressando alegria e agradecimento pela protecção que viam nesses militares vindos de Lisboa, garbosos nas suas fardas de caqui. Teve pena de não ter consigo a máquina para fotografar o momento, mas a memória fixou as expressões sorridentes dos guineenses e as dos maçaricos muito brancos, alguns com calções exageradamente largos, marchando com visível apreensão. Estar na Guiné (1964) não era uma missão fácil, tudo lhes era desconhecido e, por isso mesmo, os medos tornavam-se terrores, as dúvidas afligiam e a surpresa parecia acontecer a cada canto. Todavia, aquele primeiro contacto, tão espontâneo e amistoso com a população, tranquilizou-os. Catarina olhou-os com um misto de orgulho e pena, sabia que muitos não voltariam e seriam vencidos pelos fazedores de balas, pelo deflagrar das minas, pelo explodir das granadas. Guerra, era terreno que Catarina conhecia bem e, por isso, sofreu ali, na Avenida de Bissau. Por eles, pelas mães que em Portugal, choravam, pelas mulheres e pelos filhos. Sentiu-se mal. Emocionou-se. Havia que reagir e continuar o passeio. Viu tudo e voltou a deliciar-se com o comércio africano. Numa loja acabou por comprar uma belíssima pulseira que passou a usar frequentemente.

A Guiné era fascinante, Catarina sabia-o, e pensou que se não houvesse guerra e fosse um território explorado para o turismo, por exemplo, as propostas a oferecer eram irrecusáveis. Lembrou-se como o arquipélago dos Bijagós era de uma beleza estonteante. A Ilha das Galinhas parecia um diamante a sair da terra, tal era a sua pureza! A beleza, em bruto, faiscava ao sol intenso de forma ofuscante. Luxuriante, colorida, exótica. Indescritível a transparência das suas águas, a vegetação tropical. Sobrevoada duas vezes por semana, quando o avião passava e largava o correio era como se a 5ª Avenida, de Nova Iorque, descesse à ilha. A euforia era geral, dava direito a gargalhadas, a mergulhos nas águas mornas e límpidas, a acenos para o piloto que correspondia ao entusiasmo incontido dos militares destacados naquelas paradísiacas paragens.

Na Guiné viveu momentos inesquecíveis. Lembrou o batuque escutado numa das ilhas do arquipélago. Nunca vira até ali nada que se pudesse igualar e tinha sérias dúvidas se alguma vez mais voltaria a ter sensação idêntica. Foi uma experiência fabulosa. Maravilhou e amedrontou numa amálgama de emoções que, na altura, nem soube saborear, recordou.

Não dominei o momento, fui literalmente arrebatada por ele.


Os corpos brilhavam intensamente pelos óleos usados e pelas gotas de suor que caíam como pérolas no ritmo frenético dos movimentos de homens e de mulheres que foram ao fundo das suas raízes culturais e agarraram a tradição, libertaram-se e, numa poderosa agilidade, executaram danças que não só desafiavam a gravidade como se revestiram de fortíssima emoção. Foram danças nativas autênticas, vigorosas, sensuais, arrepiantes, arrebatadoras e envolventes. A cadência dos tambores ecoava na noite como um coro de vozes sobrenaturais. Catarina chegou mesmo a ter medo desse ritmo, desse entusiasmo e desse frenesim que dominou por completo os bailarinos, pintados garridamente, descalços, vestidos com pequenas tangas, não faltavam dezenas de colares e máscaras estranhas. As bailarinas, usavam saias de ráfia que mexiam nas ancas como se um furacão as fustigasse. Tudo foi freneticamente genuíno e contagiante. A jornalista não encontrou as palavras certas nem teve memória visual para fixar o que nunca tinha visto. Valeu-lhe a máquina fotográfica e, através dela, fez um trabalho fabuloso, com fotos de qualidade.

Sempre recordou aquele inédito serão. A determinada altura levaram-na para o centro do círculo e, à sua volta, dançaram, cantaram e gritaram. Pensou que ia morrer de susto. Sentiu-se como alguém que ia ser sacrificada a algum deus desconhecido. Mas, afinal, aqueles bailarinos acabaram por lhe colocar ao pescoço um longo colar de ráfia florido, elegendo-a rainha da noite, por entre gritos, risos e palmas. Mas, as expressões, os olhares, o ritmo avassalador que lhe tinham provocado arrepios, foram instantâneos que a memória não apagou.

Lembrou-se também de Varela, uma estância turística de muita qualidade que foi destruída num ataque pela calada da noite. Ataque impiedoso que fez dezenas de vítimas e destruiu uma estância de férias que poderia rivalizar com as melhores das melhores na elegante Europa. Um dos donos, um antigo e famoso jogador de futebol, agora dono de um café no centro de Bissau, quando falava dessa jóia perdida não conseguia reter as lágrimas, que deslizavam pelo rosto magro e curtido por muitos sóis e demasiadas amarguras. No entanto, não deixou a Guiné. O fascínio africano corria-lhe nas veias e embora não o confessasse, ou talvez nem se apercebesse, continuar ali era estar mais perto do seu sonho, do paraíso que um dia tinha construído. Apenas lhe restava a miragem que lhe iluminava os dias e lhe povoava os sonhos, por vezes tornados pesadelos.

Catarina respirou tranquilamente e ao sabor das recordações e do caminhar pausado, quando deu por si estava frente ao cais do Pidjiguiti. A criatividade da Natureza no seu grande esplendor estava ali por entre barcos, palmeiras, numa avenida africana transbordando energia. Sentou-se no muro branco alvo e olhou o quadro que o céu pintava numa mescla de nuvens, cores e transparências assombrosamente irreais. O Sol, laranja-avermelhado, preparava-se para outras paragens e deixava, lentamente, Bissau envolvida num manto brilhante e multicolorido, raiado de luzes intensas e fugidias. Catarina olhou, voltou a olhar e disse, baixinho, para si:

-Isto é uma canção de amor…