NOITES NO ÚCUA (1ª parte)


Tudo estava já organizado e a partida da coluna de Belas não demorou a deslizar no asfalto que conduzia a local bem distante de Luanda. No primeiro jipe ia o coronel e três elementos de segurança; no segundo, Catarina ( a ordem oficial não tinha chegado a tempo, mas o trabalho estava marcado), dois soldados e o capitão, sentado no banco de trás.Nas restantes viaturas elementos de uma Companhia e, certamente elementos de segurança, pormenores a que a jornalista não tinha acesso. A única coisa que sabia é que todos empunhavam uma G-3, como se esperassem ser atacados na próxima curva.


Catarina era naquele momento uma profissional feliz, sabia que ia ao encontro de um trabalho difícil, mas essa mesma dificuldade entusiasmava-a, era um desafio profissional que enfrentava com determinação.Sentia-se bem no camuflado, os longos caracóis apanhados atrás não a protegiam do sol intenso e foi o capitão Fernandes que lhe chamou a atenção para o facto.


-Talvez fosse melhor usar este boné, caso contrário duvido que chegue ao destino com forças para pegar na máquina fotográfica.


Isso é ironia? -Perguntou Catarina.


-De maneira nenhuma, é uma atitude gentil e simultaneamente egoísta. Confesso que não estou interessado, nem posso perder tempo consigo doente. Já que vai, vá na sua melhor forma e poupe-me trabalhos, por favor.


Não se preocupe capitão. Replicou Catarina. Já devia saber que sou uma mulher determinada, mas concordo, está um sol forte. Aceito o boné, é feio, mas, enfim, é para bem da humanidade. Como se põe isto?


-É indiferente, fica-lhe bem de qualquer maneira.


Catarina olhou para trás e sorriu. O capitão, agora menos tenso do que na parada do quartel entregou-lhe o boné camuflado, de pala, e retribuiu o sorriso. A cidade começou a distanciar-se cada vez mais e a estrada (demasiado deserta) tornou-se desconfortável para quem não fazia da carreira militar, profissão. Os quilómetros sucederam-se sem diálogo e Catarina sentiu que no ar pairava uma preocupação cada vez maior. Provavelmente não faltaria muito para a zona de controlo onde estariam as outras viaturas que fariam a escolta até ao acampamento.


O seu grande problema continuava por resolver. Sabia que esconder-se por baixo da lona era a única forma de não ser vista. No posto da PM ao fazerem a conferência dos ocupantes, estes teriam de estar certos com o número da lista enviada por Luanda. Se não se escondesse sabia que ficaria retida e a sua ousadia seria inglória porque a enviariam para Luanda, sem escutar qualquer tipo de apelo. Foi de agonia a sensação que arrastou durante largo tempo. Inesperadamente o capitão tocou-lhe no ombro e disse com firmeza:


-Estamos a chegar ao posto de controlo.


Catarina ficou lívida. Afinal ele sabia de tudo desde o início. Como? Quem lhe tinha dito? Ficou sem capacidade de diálogo, engoliu em seco, olhou-o sem dizer nada, saiu do jipe e ajudada, escondeu-se debaixo da lona.Sentiu-se mal, quando deveria sentir-se eufórica; tudo se estava a resolver naturalmente. Mal porquê? -Perguntou a si própria. A ideia de que a sua audácia pudesse prejudicar alguém inibia-a profundamente, não era mulher para se esconder. Sentiu-se cobarde, ali, no escuro da caixa do atrelado. Chorou. Nervoso? Não soube bem, naquele momento tudo era confuso.


Sentiu o jipe abrandar e escutou vozes desconhecidas. Apertou as mãos contra o estômago e quase juntou os joelhos ao queixo. Aguardou, não sabia bem o quê, mas desejou não ser descoberta. Pareceram-lhe séculos o tempo da paragem. O diálogo travado entre o capitão e os militares da PM que faziam a contagem não lhe foi perceptível, mas pelas frases soltas que conseguiu apanhar pareceu-lhe que tudo estava a correr com normalidade. Será que passaria? Em boa hora voltou a ouvir trabalhar o motor do jipe, mas, mesmo assim, não ousou nem sequer mexer um dedo. Permaneceu na mesma posição e esperou que se lembrassem de que ela precisava de respirar ar puro.


Pode sair, venceu o primeiro round . -Avisou-a o capitão, com uma satisfação que tentava disfarçar. Não era homem que gostasse de demonstrar emoções.


Primeiro round ? Ainda há mais!? Inquiriu Catarina, atrapalhada.


Conte com isso, aliás, conte com tudo porque a partir de agora até chegar novamente a sua casa está em terreno altamente perigoso. Mas como a escolha foi sua… Não a consigo perceber, confesso, mas respeito-a e admiro-a como profissional. Penso que, pelo menos psicologicamente, nada a deve surpreender.-Adiantou o capitão.


-Não é tanto assim, estou preparada e não espero o pior; movo-me sempre pela positividade. Tudo vai correr bem, penso. Posso mesmo sair daqui?


-Força, respire fundo. Está em terreno de alerta vermelho.


Catarina saiu agilmente do atrelado e, ao lado do jipe, respirou com prazer, apesar da aragem pesada numa tarde quentíssima. Sentiu-se transpirada, mas não se importou. Acabava de ganhar a sua primeira batalha. O asfalto terminara, a coluna tinha transposto a barreira formada por uma espécie de portão e entrara no trilho situado à direita. Embora largo, era de terra batida (ali a terra era vermelha, não tanto como a que estava habituada a ver na Guiné, mas tinha muito desse tom que, com os reflexos do Sol, ficava mais intensa). De regresso ao lugar no jipe reparou que pelo menos seis grandes viaturas esperavam a coluna. Aí, teve uma inesperada sensação de perigo. Olhou para os magníficos e imponentes embondeiros que povoavam a zona e fixou o olhar no horizonte a perder de vista…

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2 responses

  1. Folgo em vê-la voltar ao livro…

    Março 14, 2008 às 1:12 am

  2. MEB

    Obrigada. É,apenas, uma pincelada na minha tela da memória

    Março 14, 2008 às 1:20 am

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