LÁ…ONDE NASCEM OS DEUSES!


Andam a mexer nos meus sonhos e nas minhas inquietações. Há anos que fujo espiritualmente para Lhassa (Lugar dos Deuses), um santuário onde as feridas da vida saram, na tranquilidade dos lugares de silêncios profundos, nos cumes das serenidades e dos deuses. Os deuses nascem ali! No tecto do Mundo (encravado nas encostas dos Himalaias, entre a China e a Índia), para contemplarem a sublimação da existência humana que deveria ser esclarecida e gratificante.

Não sou budista (400 milhões de seguidores no mundo inteiro), mas aprecio a serenidade que essa filosofia de vida irradia e, sem nunca ter posto um pé no Tibete e, consequentemente, no Palácio Potala, o Branco e o Vermelho (declarado pela UNESCO, em 1994, Património Cultural da Humanidade), majestoso no cimo da Montanha Vermelha, a roçar as nuvens, nos seus 3.700 metros acima do nível do mar, sinto conhecer-lhe cantos, recantos, paredes, escadarias, patamares, muros, paisagens, janelas. Tantos foram os filmes que vi, os artigos que assimilei, os vídeos que colecciono.


Os distúrbios ultimamente ocorridos (iniciaram-se a 14 de Março), com visível agressividade, provocam angústia e preocupação a nível mundial já que a situação pode transformar-se num rastilho de pólvora de dramáticas consequências. O povo tibetano há 100 anos que sente a supremacia chinesa no seu território e o Dalai-Lama (quer dizer Oceano de Sabedoria), Prémio Nobel da Paz, em 1989, está exilado há 49 anos na Índia. Deixou Lhassa a 17 de Março de 1959 e, nos últimos anos, crê-se, que tem tido conversas informais com as autoridades chinesas na procura de solução para o conflito, embora a China o indique publicamente como instigador das recentes rebeliões. As divergências, as lutas, as revoltas no Tibete e as sistemáticas ocupações por parte da China têm sido, uma constante. Só que, desta vez, dada a proximidade com a realização dos Jogos Olímpicos (criados na era moderna, em 1896, em Atenas, pelo barão francês, Pierre Coubertain. Atletas do sexo feminino só participaram em 1900), em Pequim, a situação atinge contornos de difícil resolução.

Se por um lado, quando foram assinados os protocolos necessários para a realização dos Jogos, na China, em 2008, se sabia da situação no Tibete e não se ignorava que este país, a China, não é um salutar exemplo de defesa dos Direitos Humanos, a verdade é que se disse “sim” a essa mesma realização. Os acordos comerciais continuam entre muitos e muitos países e boicotar este evento desportivo que já percorre os caminhos do Mundo, há mais de 2.500 anos, a partir da Grécia Antiga, cidade de Olímpia, no Peloponeso, não é sob ângulo algum uma medida a tomar, dado o seu prestígio e visibilidade. Claro que o povo tibetano encontrou neste Março, uma oportunidade única de fazer ouvir a sua voz pelo mundo, precisamente pela proximidade da realização Olímpica, na defesa da bandeira que é a libertação do seu país.

A China não é flexível mas teme, à sua maneira, o boicote e sabe que neste momento, em teoria, pouco joga a seu favor mas, na prática, é uma potência imensa e isso pesa no mundo. Como terminará a situação Lhassa/Jogos 2008? A importância e o impacto dos Jogos Olímpicos serviu já para confrontos e reivindicações políticas de gravosas consequências. Foi o caso, em 1972, em Munique, do massacre sobre atletas e membros da comitiva de Israel. Em 1980, 1984, verificaram-se boicotes e em 1996 (Atlanta), um atentado à bomba. Só que as estruturas já existentes e as que se estão a concluir na China para a realização dos Jogos, diz quem já viu, são absolutamente espectaculares. E o governo de Pequim quer abrir as portas e mostrar ao mundo o seu poder e capacidade de realização. Para já, pagou uma verba à família das vítimas ocorridas no Tibete, e assumiu todos os compromissos nos tratamentos hospitalares aos feridos. Convenhamos que é pouco.

A situação é, portanto, de natural expectativa. Que não se verifiquem extremismos, que a moderação mova decisões sábias, que os objectivos da Grande Festa do Desporto, que reúne milhares de atletas, vindos de centenas de países, sirvam para aquietar energias que devem ser orientadas na alegria, na paz e na beleza.

O mundo precisa de acreditar em Pequim.
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