OS DIAMANTES DO CÉU DO NAMIBE


Os desertos (cobrem 33,7 milhões de km2 da superfície terrestre, com uma população de 500 milhões de pessoas) fascinam-me e, em paralelo, amedrontam-me. São espaços imensos e magníficos que para se abraçarem de peito aberto é necessário dominar a difícil arte de conhecê-los para, assim, os poder entender e testemunhar em toda a sua exótica espectacularidade e diversidade. Há desertos quentes, frios, todos imensos, encerrando valiosas potencialidades e sofrendo profundas e constantes agressões humanas e, actualmente, também climáticas.

Pessoalmente só entrei dentro do deserto do Namibe (Angola). Nele existe a maior duna de areia do mundo (cerca de 383m.), a sua área é de cerca de 50.000km2, estendendo-se por 1.600 km ao longo do litoral do Atlântico, no sul angolano. Percorrer o rendilhado das ondas aos pés das dunas viradas para o Cunene, é algo de irreal. Foi um passeio inesquecível, eram nove jipes e 3 motas todo-o-terreno, numa excursão barulhenta e entusiasmada, preparada para conhecer aquele que é considerado o deserto mais antigo do mundo (80 milhões de anos) e, sendo a sua maior parte desabitada sei que aí vivem, pelo menos, os Mucubais, um povo reservado, dizem que pouco expansivo mas de grandes tradições. Há anos atrás, elegeu Riquita, Miss Angola, como sua rainha. E ela ficou deslumbrante e régia nas vestes tribais.

A incursão no Namibe foi um dia de pura fascinação (e agitação) que aumentava de descoberta em descoberta. Deserto, para mim, estará sempre envolto na surpreendente imagem de Lawrence da Arábia (um grandioso filme de David Lean, premiado com sete Óscares) quando PeterToole, de olhos azuis brilhantes como água, vestindo alvas vestes, em cima do seu cavalo de neve, de longas, sedosas e soltas crinas, rodopiava, feliz, antes de partir para uma das suas batalhas. Uma cena arrebatadora.


No Namibe, tive oportunidade de ver muitas, imensas, de todos os tamanhos, as exóticas Welwitschia Mirabilis (havia uma pequenina no cinema Miramar, em Luanda), planta que só existe neste deserto e pode durar mais de 100 anos. Almocei à sombra das dunas, deliciei-me ao olhar a maciez das areias, lisas, brilhantes que quando marcadas por isoladas pegadas me fizeram lembrar, novamente, a grandiosidade de Lawrence da Arábia. O meu plano visual era idêntico ao captado pela visão de Lean. Surpreendente.

Achei fascinante a descoberta, aquela lonjura de areia a perder de vista e até o calor do dia parecia não incomodar, tal era o encantamento da aventura. Regressei ao cair da tarde a Moçâmedes e não ousei passar a noite no interior do Nabime. Hoje, sinto pena por não o ter feito, dizem os sabedores no assunto, que a noite é o mais fascinante no deserto. Não há paz nem liberdade maiores do que a sentida debaixo das estrelas enormes e brilhantes como diamantes no céu. A sensação, dizem, é única e, enfeitiçante. Não me aventurei por medo do desconhecido, provavelmente. Ou pela sensação de isolamento e aridez. Neste sector o deserto Atacama (no norte do Chile) é o recordista mundial em aridez: durante 45 anos, entre 1919 e 1964, não recebeu uma gota de chuva!

No tocante a desertos a minha vida não é muito diversificada, até agora. Pezinhos nas areias do Namibe e sobrevoar, por diversas vezes, o deserto do Saara (o maior de todos seguido pelo Gobi, na Ásia e um dos mais quentes –pode chegar aos 60º-, ao lado do Kalahari), o lugar mais quente do planeta, com 9.065.000 km2, quase do tamanho da Europa, recheado de caminhos para caravanas e frondosos oásis e, apesar de ir bem escudada dentro do avião nos dez mil pés de altitude, confesso que a emoção não deixou de ser intensa e intimidante. A grandiosidade, as dunas, rochas, os recortes, os mares de areia, de muitas tonalidades, não permitiam desviar o nariz da janela redonda que se abria para um mundo de grandeza, de mistério e de total encantamento. Curioso, apesar de não dominar bem o assunto quando penso em desertos, sinto liberdade.

Alguns especialistas acreditam que os desertos possam vir a tornar-se em fontes de energia limpas do século XXI. Argumentam que uma área de 800 km por 800km de um deserto como o Saara poderia capturar energia solar suficiente para gerar todas as necessidades mundiais de electricidade. O não aproveitamento desse recurso deve-se ao facto de os países desenvolvidos continuarem a preferir a contínua exploração petrolífera e ao enriquecimento das empresas que se dedicam à sua extracção. (BBC)
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