Archive for Maio, 2008

LUSO- SURPREENDENTE, FLUTUANTE,TRAIÇOEIRO E MÁGICO


…Catarina voltou a deliciar-se com a pródiga beleza que inundava o seu campo visual ao atravessar -uma vez mais- o Leste de Angola que, visto do ar, se assemelhava a uma explosão de verdes, laranjas, vermelhos e azuis, desenhando uma caprichosa manta de cores intensas e tropicais


– África, no seu melhor! Pensava, admirando o esplendor que se abria perante o seu olhar, maravilhado.


-Enfeitiçante, só pode! Bebi água do Bengo! Lá diz a tradição que quem dela bebe,fica com Angola no coração. E tem, sempre, de voltar


Enquanto sobrevoava o Luso (Moxico), capital do Leste (hoje, Luena), Catarina recordou as semanas aí passadas que marcaram os seus melhores tempos vividos em África. O Luso era uma terra especial. Bonita, limpa, de ruas bem estruturadas, com um dos melhores climas de toda a Angola. Limitada por arame farpado, é certo, mas não deixava de ser uma terra de charme, de paixão. Tudo se envolvia numa intensidade genuína e cultiva-se o intenso prazer de viver (sofregamente) talvez porque a ameaça de morte ecoasse fortemente nos sentidos atentos ao que se passava.


Ultrapassar os limites, assinaladas com o arame, era um puro acto de insensatez mas, Catarina, fê-lo por várias vezes, mesmo à noite, desafiando o que não devia ser desafiado. Vivia-se uma espécie de embriaguez e ousar era uma forma (estranha) de saborear a vida! Tempos depois, ao recordar as imprudências não podia deixar de sentir uma espécie um arrepio doloroso a percorrer-lhe o corpo.


Tinha arriscado muito. Demasiado. Recordou a noite em que por qualquer motivo não alinhou na transgressão e não ultrapassou a barreira de segurança para ir beber uma simples Cuca (cerveja angolana) a um pequeno lugar qualquer onde se juntavam cinco ou 10 pessoas e falavam, bebiam, ouviam música, num convívio agradável. Nessa noite não foi, e o carro onde ia habitualmente foi alvejado e, só por um incrível capricho da Natureza, as balas não feriram mortalmente, mas deixaram profundas marcas nos três ocupantes. Nunca mais tiveram coragem de ousar. Passaram a limitar-se a juntar e a espairecer o espírito, após dias de angústia. Só que o Luso era, em si, empolgante e só isso ajudava a sobreviver.


O Grande Hotel era o local onde Catarina se alojava sempre que se deslocava ao Leste, principalmente ao Luso. Era praticamente ocupado por militares e pelas suas famílias. Havia muitas mulheres de oficiais que permaneciam ali embora os maridos estivessem colocados em acampamentos distantes e se vissem muito espaçadamente. Naquela altura só a mulher do comandante do acampamento de S. João tinha a coragem de estar lá com o marido. Era uma mulher lindíssima, morena. Provocadora, q.b. Aprendeu a manejar a G-3 com perícia. Fazia sucesso quando passava pelas brisas do Luso e pensava-se como é que ela gostava de estar num sítio tão isolado e tão perigoso. Haveria motivos e deviam ser aliciantes.


Podia contar-se pelos dedos das mãos os pontos especiais que existiam na capital, capazes de prender atenções. Eram muito poucos na realidade mas eram vigorosos, emotivos, vivia-se diariamente coabitando com o imprevisto e com o medo. Chegou a estar-se muitas vezes no cinema com o barulho de morteiros estalando próximo mas, ir ao cinema, no Luso, era uma sensação única. Os espectadores que enchiam a sala, vestiam-se como se fossem para uma festa ou como se prepararem-se para um último encontro social. Nos rostos haviam sorrisos fixos, olhares alheados, mas a postura era firme. Cada um era um poeta da sua vida, capazes de escrever poemas nas estrelas, confidentes de ânsias, raivas, desassossegos e gratidões.


Por um lado, um desafio; por outro, saborear o prazer de ver gente, de sentir que não se estava só e essa socialização era benéfica. Mais, era necessária para se continuar a enfrentar as dificuldades que os tempos ofereciam. Nessa sala reuniam-se as forças vivas do Luso. Catarina era frequentadora fiel. Sempre que estava na zona e os seus trabalhos o permitiam, a jornalista despia-se da sua profissão e saboreava a noite. As noites do Luso tinham fascínio, mais do que se encontrava em Benguela -a cidade das acácias rubras- porque se a cidade da Praia Morena era muito maior, mais variada, mais citadina, o seu encanto, apesar de imenso, não conseguia igualar as sensações do Luso que parecia uma pequena pérola a brilhar ao lado de uma granada e, isso, conferia-lhe um sortilégio especial.


Além do cinema havia um restaurante, O Fragoso, perto da área do hotel, era um local elegante, habitualmente frequentado pela melhor sociedade. Lá se encontrava o médico, o engenheiro, o comandante, os oficiais. Jantar no Fragoso era como viver uma cena cinematográfica. Porquê? Porque havia muita cumplicidade no ar. Muitos segredos. Muitos amores e desamores. O facto de se viver diariamente no centro do perigo aumentava o apetite pela vida. Saboreava-se tudo, ao mais ínfimo pormenor.


Analisavam-se, pacientemente, pessoas e situações, em íntima cumplicidade, com a realidade e a imaginação: a senhora que fez uma operação plástica que lhe deixou a cara tão esticada que brilhava, sem vida e sem expressão; o médico que, dizia-se, tinha uns amores clandestinos; o capitão que sonhava com a mulher de um outro. A mulher do engenheiro que sonhava com uns braços que não eram os do marido. Amores desencontrados e proibidos eram pródigos naquela zona de guerra. As histórias eram muitas e os mexericos ainda mais.


Quando Catarina descia a rua florida que vinha do hotel até ao largo onde se situava o Rádio Clube do Moxico, a jornalista deliciava-se com o sopro de vento que lhe amaciava o rosto.


Vou sempre, sempre, lembrar-me destes momentos em que desço esta rua.


Ao longo das suas permanências no Luso, Catarina já tinha feito amigos. Ia frequentemente ao Rádio Clube e daí saía frequentemente para festas. A Adília, o Torres, o casal Ferreira, ajudaram-na a descobrir o encantamento da terra. E, passados anos, quando os recordou lembrou-se de uma festa que tinha decorrido nas instalações da Voz Amiga do Leste de Angola, em directo, com a ajuda da presença dos elementos da República O Trunfo é Kopos (militares portugueses, do destacamento de Engenharia, destacados na zona) onde vozes, canções, poesia, preencheram uma noite (inesquecível) que terminou com uma sessão de fados onde o alferes Maia cantou com alma e coração:


-Morte que Mataste Lira/Mata-me a mim/ Que sou Teu/ Mata-me com os mesmos ferros /Com que a Lira Morreu… A emoção era tanta que arrepiava. Estava-se ali, longe do mundo, ao sabor dos acontecimentos e das emoções. O Luso era como um vulcão: por vezes silencioso, adormecido, mas sempre ameaçando explosões exuberantes.

Dizia-se que o alferes estava perdido de amores por Helena, a mulher de um engenheiro destacado no Luso. Helena que, dizia-se, estava perdidamente enamorada por um director de uma firma aí sediada. Era uma mulher linda. Alta, esguia, com os belos cabelos louros que habitualmente prendia com uma fita de veludo negro. Falava-se muito de Helena mas quem a via, ao lado do marido e do filho, sempre muito serena e até com um certo ar de recato, ninguém desconfiava que dentro do seu coração havia conflito de sensações. Insatisfeita, ela não desistia de procurar quem desse maior entusiasmo à sua vida, mas, parecia, sem resultados positivos, apesar da sua aristocrata beleza. Helena acabou por regressar a Lisboa e continuou a viver a vida de uma mulher casada, bonita, um pouco apática, um pouco triste.


A guerra proporcionou sublimados estados de espírito em aventuras (enormes ou discretas) suficientemente capazes de alvoraçar corações e alimentar secretas e confusas esperanças. Os pensamentos sucediam-se freneticamente e, sem dar por isso, a viagem, prestes a terminar, acabou por ser um desfilar de recordações indeléveis. Catarina lembrou o Luso e alguns dos inesquecíveis momentos aí passados até que o aeroporto de Luanda começou a avistar-se. Quando se preparava para deixar o avião, Catarina ainda sentia a nostalgia das memórias que tinha acabado de reviver. Já na pista, assistiu ao desembarque dos feridos e a todos desejou que vencessem a dura batalha que tinham pela frente. Esse era o lado dramático do Luso. A dor quando batia à porta era dura, era um desafio aos limites da capacidade de cada protagonista nesse cenário de guerra que exigia ânsias exageradas de heroicidade. Quantos heróis, Catarina, não conheceu que sucumbiram exaustos e loucos na voracidade bélica que atordoava os sentidos e matava vidas?…

O homem nunca encontrou uma definição para a palavra liberdade.
(Abraham Lincoln)


GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ -SIM ou NÃO?

Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente, pensaria tudo o que digo.
Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e gozaria um bom sorvete de chocolate.

Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida, vestiria simplesmente, me jogaria de bruços no solo, deixando a descoberto não apenas meu corpo, como minha alma.
Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre estrelas um poema de Mario Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à Lua. Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo de suas pétalas.

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida. Não deixaria passar um só dia sem dizer às gentes – te amo, te amo. Convenceria cada mulher e cada homem que são os meus favoritos e viveria enamorado do amor.
Aos homens, lhes provaria como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar. A uma criança, lhe daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha.

Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento. Tantas coisas aprendi com vocês, os homens…
Aprendi que todo mundo quer viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa.
Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.

São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas, finalmente, não poderão servir muito porque quando me olharem dentro dessa maleta, infelizmente estarei morrendo.

*

Quando, já há alguns anos (1999), recebi este inesquecível texto por e-mail, chorei como uma Maria Madalena. Achei absolutamente enternecedor e quase divinizei Gabriel García Márquez (Gabo, Gabito), o escritor colombiano, Prémio Nobel da Literatura de 1982. Quanto mais o via e lia (vinha preciosamente ilustrado, apesar do texto ser suportado apenas por uma foto. A melodia, linda e inspirada, ajudava à emoção), perdia-me em lágrimas.
Pensei que o escritor ia durar apenas escassos dias e aquele texto era um testamento do Gabo (aos amigos e ao Mundo), disciplinado, sereno, lúcido, onde García Márquez, libertado já do seu individualismo lucidamente, conseguia abraçar o todo universal. Apesar da dor da mensagem havia nela uma harmonia que conseguia suavizar o meu sofrimento. Lia-a várias vezes durante estes 9 anos. E o ritual repetia-se. Sempre que o fazia, chorava. Cheguei mesmo, durante uns confusos tempos, pensar que Márquez já tinha morrido.

Acontece que, hoje, ao navegar por esta janela aberta para o mundo (Net) encontrei algo que me fez ficar, pelo menos pálida. Acabei por chocar com uma página onde li que este texto –Carta Aos Amigos ou A Despedida– não era do famoso escritor colombiano e que o verdadeiro autor era Johnny Welch. La Marioneta, foi o título dado ao poema por este ventríloco que trabalha no México com o seu boneco de nome Mofles.

Escritor de muitos livros, entre eles o inesquecível Cem Anos de Solidão, jornalista, editor e activista político, diz-se que simpatizante do marxismo, está vivo e diz o seu biógrafo Dasso Sáldivar, curado do cancro do pulmão (1992) e um linfático (2000). Um estilo de vida mais recatado (tem 81 anos) e a felicidade partilhada ao lado da mulher e netos, no México, ajudam na finalização da nova obra (dedicada ao amor) do escritor que chegará às livrarias em princípios de 2009, encerrando o ciclo que teve início em 1985 com Amor em Tempos de Cólera, Do Amor e outros Demónios (1994) e Memória das minhas Putas Tristes (2004).

Sobre a Carta aos Amigos ou A Despedida, de García Márquez, fica-me a dúvida. Verdade? Mentira? Para mim é algo mal explicado mas, no fundo, não posso deixar de confessar que foi um texto (alguns acharam piegas) que me tocou o coração. E toca.

Um verdadeiro amigo é quem te pega da mão e te toca o coração
(G.G.Márquez)



NÓS, PODEMOS FAZER MAIS DO QUE ISSO!


A história (comovente) que irão ler já é muito conhecida. Ela foi publicada na Revista Bombeiros em Emergência nº 19 SP (São Paulo, Brasil) e está em muitos sites especializados. Tem sido lida em diversas formaturas de Bombeiros, e figura em centenas de exposições das Corporações, além de circular pela Internet.


Qualquer que seja a nossa actividade profissional devemos ter em mente a importância de fazermos sempre algo mais. No caso presente, que é uma história verídica, a revista dos Bombeiros de S.Paulo fê-la circular para que a sua filosofia e princípios fossem internacionalizados. E aproveitaram a ocasião para perguntar:


-E vocês, frente aos pedidos dos vossos pais, irmãos, filhos, parentes, amigos, necessitados, têm respondido: Eu posso fazer mais do que isso!


Reflicta se a sua vida tem estado ao serviço do próximo e tome uma decisão hoje mesmo. Um amigo disse-me uma vez:


-Pior do que querer fazer e não poder é poder fazer e não querer (Levi Dias de Santana- Bombeiro)

***


A mãe sentou-se ao lado da cama do seu filho de 6 anos, que estava doente com leucemia (em fase terminal). Embora o seu coração estivesse cheio de tristeza e de angústia, ela era muito determinada e, como qualquer outra mãe, gostaria que o filho crescesse e realizasse os seus sonhos. Agora, isso não seria possível, por causa da doença. Disfarçando a angústia debruçou-se sobre ele, pegou-lhe na mão e perguntou:


– Filho, alguma vez pensaste no que gostarias de ser quando cresceres?


– Mamã, eu sempre quis ser bombeiro! A mãe sorriu e disse-lhe:


– Vamos ver o que podemos fazer.


Mais tarde, naquele mesmo dia, ela foi ao Corpo de Bombeiros local, contou ao chefe a situação do filho e perguntou-lhe se seria possível o garoto dar uma volta no carro dos bombeiros, à volta do quarteirão. O chefe, comovido, disse:


– Nós, podemos fazer mais do que isso! Se estiver com o seu filho, pronto, às sete horas da manhã, daqui a uma semana, nós faremos dele um bombeiro honorário, por todo o dia. Ele poderá ir para o quartel, comer connosco e sair para atender às chamadas de incêndio. E se nos der as medidas dele, nós conseguiremos um uniforme completo: chapéu com o emblema de nosso batalhão, casaco amarelo igual ao que vestimos e botas.


Uma semana depois, o bombeiro-chefe pegou no garoto, vestiu-lhe o uniforme completo e escoltou-o desde o leito do hospital até ao carro. O menino ficou sentado na parte de trás, e foi até o quartel central. Parecia estar no céu… Ocorreram três chamadas naquele dia na cidade e o garoto acompanhou todas as emergências. Em cada chamada, ele foi em veículos diferentes: no tanque, na ambulância dos paramédicos e até no carro especial do chefe dos bombeiros. Todo o amor e atenção que foram dispensados ao menino acabaram por comovê-lo tão profundamente, que ele viveu três meses mais que o previsto pelos médicos.


Uma noite, todas as suas funções vitais começaram a cair dramaticamente e a mãe decidiu chamar ao hospital, a família. Então, lembrou-se da emoção que o filho tinha sentido no dia passado como um bombeiro. Pediu à enfermeira que ligasse para o chefe da Corporação e perguntasse se seria possível enviar um bombeiro para o hospital, naquele momento trágico, para ficar com o menino. O chefe dos bombeiros respondeu-lhe:


– Nós podemos fazer mais do que isso! Estaremos aí em cinco minutos. Mas, faça- me um favor. Quando ouvir as sirenes e olhar as luzes dos nossos carros, avise que não se trata de um incêndio. É, apenas, o Corpo de Bombeiros que vai visitar, mais uma vez, um de seus mais distintos elementos. E, já agora, poderia abrir a janela do quarto dele?


Cinco minutos depois, uma ambulância e um caminhão com escada chegaram ao hospital. Estenderam-na até o andar onde o garoto estava, e 16 bombeiros subiram. Com a permissão da mãe, eles abraçaram-no, seguraram, sorriram e disseram que o amavam.Com voz fraquinha, o menino olhou para o chefe e perguntou:


– Chefe, eu sou mesmo um bombeiro?


– Sim, você é bombeiro e um dos melhores. Com estas palavras, o menino sorriu e fechou os olhos para sempre.

Confia em ti mesmo. Cria o tipo de vida que te fará feliz para o resto dos teus dias. Aproveita as tuas capacidades ao máximo, transformando as pequenas centelhas de possibilidades que tens dentro de ti em chamas de conquista

(Foster McClellan)


PEDRO PASSOS COELHO – O OBAMA PORTUGUÊS


As eleições directas para apurar o vencedor dos candidatos à liderança do PSD (31 de Maio) vão ser desusadamente emotivas e o vencedor já está mentalmente escolhido e, admirem-se ou não, é…Pedro Passos Coelho (discurso moderado e uma cara nova na política)! Não que eu concorde com a sua vitória (é demasiado cedo), mas vai ser ele e o culpado não é o futuro líder mas, sim, a série de lideranças frágeis e desastrosas ultimamente exercidas.


Passos Coelho sofre (a seu favor) de uma súbita e imperiosa sensação (asfixiante) de mudança que ataca a massa eleitoral, fartérrima de não ver futuros. Saturada de tanta dificuldade. Esgotada de lutar contra a maré ou fica ou parte. Neste momento Portugal é o oitavo país de maior emigração e, na sangria de evasão, vão os cérebros de que precisamos como pão para a boca, vão os especializados, vão os que querem mesmo agarrar a vida de frente, com ambas as mãos, dispostos e lutar até vencer. Por cá, ficam os desfavorecidos da sorte, os injustiçados, os apáticos, os idosos. E Portugal vai mirrando. Empalidecendo. Tuberculizando, porque a fome está aí. Fome, enganada a sopa com pão.


O ano de 2009 vai ser pródigo em eleições, mas para já temos as do PSD que darão o líder e o candidato a futuro primeiro-ministro –Passos Coelho assumiu o papel mostrando que não quer apenas marcar território no partido. O candidato à liderança do PSD defendeu um Estado com menos despesas e mais aberto a parcerias com a sociedade e com o privado-, no (provável) futuro confronto com Sócrates.


Mas, perguntarão e bem, o que tem Passos Coelho a ver com Barack Obama, pré-candidato democrata às eleições Presidenciais Americanas, a realizar a 4 de Novembro? O que tem? Usufruiu da mesma onda de inesperada euforia por parte dos saturados do mesmo e ávidos de inovações. Num abrir e fechar de olhos conquistou os jovens e os deserdados dos amanhãs.Uns discursos excelentes, empolgantes (feitos por um elemento do seu staff), fizeram o resto: atiraram Hillary Clinton (que tudo indicava seria a futura presidente dos EUA) para o espaço e se Barack Obama ganhar vamos torcer a orelha, mas vai ser tarde (ver crónica de 15 de Fevereiro). Ele é bom mas não tem experiência. Vai apanhar uma América endividada, estilhaçada, fustigada por intempéries cada vez mais frequentes, a braços com o petróleo a subir e a esvaziar-lhe as reservas, além da herança do presidente cessante.


Com Passos Coelho é um pouco assim: Manuela Ferreira Leite deveria ganhar, ela tem a tarimba da experiência; Patinha Antão, diz-se que é um peso pesado; António Neto da Silva, desistiu, por não ter conseguido arranjar as assinaturas necessárias e queixando-se da marginalização feita na Comunicação Social; Santana Lopes tem sido desastrado (socialista de meia-tigela, foi o que chamou a Sócrates, num não inspirado discurso, em Monte Gordo, no mínimo, deselegante) em demasia para convencer a ter-se mais do mesmo (ver crónica de 24 de Abril).


Então, como consegue Passos Coelho uma dinâmica ganhadora?Frequentemente é apontado como inexperiente! Sobre isso, diz:


Prefiro não ter experiência Governativa do que ter a má experiência que Santana Lopes teve. E adianta:


-Para quê estar a escolher uma liderança de transição se podemos escolher uma liderança forte para os próximos anos? Passos Coelho fez a pergunta a centenas de militantes que o escutavam numa reunião de campanha, creio que em Cascais.


É inegável a inteligência (não tem, penso, a ajuda de uma poderosa e profissional máquina na retaguarda) na condução da sua presença na corrida da liderança, apesar disso está ombro-a-ombro na disputa pela vitória com a veterana Ferreira Leite. Nota-se que há pormenores que evidenciam, por vezes, insegurança, o que é natural. Tem sabido ser sóbrio e comedido na argumentação e transpira uma ambição que não lhe fica mal. Respeitador e seguro. Além disso, estão a aparecer ajudas preciosas, como foi a de Paulo Teixeira Pinto:


-Temos de escolher entre os candidatos que existem. Não por razões de amizade ou outras de qualquer outra índole, mas apenas pela questão programática e pragmática. O candidato que reúne os melhores requisitos objectivos e subjectivos é o dr. Pedro Passos Coelho. Sobre a tão falada falta de experiência de Passos Coelho, afirmou:


-A experiência é a única coisa que se adquire fazendo! Assustar-me-ia se lhe faltassem outras qualidades, como as que ele tem: sensibilidade política, visão e sentido de responsabilidade. Essas não se adquirem com o decurso do tempo.


E não tem faltado palavras elogiosas, até por parte de rivais, que vão continuar na candidatura até ao fim, como foi o caso de Patinha Antão, numa reunião no Porto:

-Passos Coelho reúne as condições para ser um líder do século XXI, o que deve ser considerado muito seriamente pelos militantes.

Se por um lado tudo nos parece dizer que só Manuela Ferreira Leite tem os trunfos necessários para ser a líder do PSD e futura primeira-ministra de Portugal, nesta altura do campeonato, sentimos que já não é assim. O mapa político começa a mexer-se e antivisiona-se, a médio prazo, a importância de novos, estimulantes, produtivos e gratificantes objectivos. Há uma necessidade gritante de agarrar o tempo.

No futuro, não muito distante, haverá poucos empregos para pessoas altamente educadas e bem preparadas. Não haverá chances para todo mundo. A qualidade do ensino é precária no mundo inteiro e isso terá graves consequências. Em especial, a educação científica é deplorável. Em quase todo o mundo os professores ainda são mal remunerados e a qualidade do ensino de ciências é muito deficiente. Para mim, este é um dos piores problemas que enfrentamos actualmente, causador de muitas desgraças. No início deste século, o escritor H.G. Wells dizia que “o futuro será uma corrida entre a educação e a catástrofe”. No momento, acho que estamos a perder a corrida.


BORBULHAS DE AMOR


É curioso como certos momentos que, à partida, podiam parecer insignificantes, se transformam em realidades notáveis, capazes de mudar o mundo. A História da Vida está repleta desses casos, desses momentos-chave, que proporcionaram a génios, descobertas de valor permanente e incalculável –lembre-se da electricidade, do telefone, por exemplo-. Muitos foram os Arquimedes que, à sua maneira e, perante os diferentes problemas a solucionar, disseram, nas suas banheiras Eureka!Eureka (Encontrei! Encontrei!).

Como se sabe esta exclamação pertenceu a Arquimedes, um matemático, físico e inventor grego. Foi um dos mais importantes cientistas e matemáticos da Antiguidade e um dos maiores de todos os tempos. Também fez descobertas importantes em geometria e matemática. Inventou ainda vários tipos de máquinas, quer para uso militar, quer para uso civil. No campo da Física, contribuiu para a fundação da Hidrostática, tendo feito, entre outras descobertas, o famoso princípio que leva o seu nome. E, descobriu ainda o princípio da alavanca e a ele é atribuída a citação


Dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo.

Mas qual seria o problema que atormentava o famoso cientista que procurava desesperadamente uma solução? Ora, contam os relatos da época que, um dia Hierão, rei de Siracusa, no século III a.C. encomendou uma coroa de ouro, para homenagear uma divindade que supostamente o protegera nas suas conquistas, mas foi levantada a acusação de que o ourives o enganara, misturando o ouro maciço com prata na sua confecção. Para descobrir, sem danificar o objecto (precioso) Hierão pediu a ajuda de Arquimedes. Esta ouviu atentamente o rei e logo se concentrou na procura da solução para o problema, a qual (pasme-se) lhe ocorreu (inesperadamente) durante o banho!


A lenda afirma que Arquimedes teria notado que uma quantidade de água correspondente ao seu próprio volume transbordava da banheira quando ele entrava nela e que, utilizando um método semelhante, poderia comparar o volume da coroa com os volumes de iguais pesos de prata e ouro: bastava colocá-los num recipiente cheio de água, e medir a quantidade de líquido derramado. Feliz com essa fantástica descoberta, Arquimedes teria saído à rua nu, gritando Eureka!Eureka!


Eu penso que Juan Luís Guerra, o prestigiado e inspirado dominicano, um dia, à sua maneira, tornou-se um pouco em Arquimedes, não na banheira mas quando ao olhar o aquário, gritou o seu Eureka! Eureka! Vamos saber como. Muito simples. Imaginem-no jardim da sua acolhedora casa, num cair da tarde, naquela hora doce do dia, quando este se prepara para se debruçar no mar, sentindo no rosto a brisa característica da República Dominicana que, garanto, é preciosa. Estava a ler Pablo Neruda, um dos seus poetas eleitos, e a magia do poeta chileno deixara-o em estado de graça, de alma e coração lavados e inspirados.


Esteve tempos em surdina olhando o que o rodeava: o ondular das palmeiras, a profusão de mil cores das flores que embelezavam cantos e recantos do espaço onde a vedeta era a piscina cheia de um azul electrizante.Luis Guerra olhou, pouco depois, para um canto junto à entrada de casa, debaixo de um alpendre verdadeiramente romântico e sedutor quando os seus olhos (apesar de, na altura, ver mal), se fixam na mesa junto às longas e cómodas cadeiras de verga.


Um grande aquário, transparente, colorido e cheio de vida enfeitiçaram-no! Olhou e voltou a olhá-lo. Ficou a olhá-lo intensamente até ao momento em que, sem se aperceber, começa a entoar sons e palavras do que viria mais tarde a ser uma canção (verdadeiro êxito mundial) de amor: Borbulhas de Amor.E foi assim que na banheira não do Luis Guerra mas dos seus exóticos peixinhos nasceu uma canção entusiasmante e romântica, um verdadeiro choque -que faz bem-, estilo duche escocês, a corações solitários.


Ouvi-a dezenas de vezes em Punta Cana Resort and Club, cantada pela Sónia e pelo Josecito (que saudades), vozes prodigiosas que debaixo da lua caribenha, fizeram (e fazem) sonhar centenas de corações e acordaram sensibilidades mesmo que adormecidas. Dançar, Borbulhas de Amor, nos luares de prata de Punta Cana, tendo por vizinho Júlio Iglésias, é adrenalina elevada à escala de alto risco. É um perigo quase mortal que sabe bem. E tudo começou com Pablo Neruda e terminou no aquário, na voz e na sensibilidade de José Luis Guerra


Tengo un corazón Mutilado de esperanza y de razón, Tengo un corazón Que madruga adonde quiera ¡ayayayay! Y ese corazón Se desnuda de impaciencia ante tu voz, Pobre corazón Que no atrapa su cordura. Quisiera ser un pez Para tocar mi nariz En tu pecera Y hacer burbujas de amor…