LUSO- SURPREENDENTE, FLUTUANTE,TRAIÇOEIRO E MÁGICO


…Catarina voltou a deliciar-se com a pródiga beleza que inundava o seu campo visual ao atravessar -uma vez mais- o Leste de Angola que, visto do ar, se assemelhava a uma explosão de verdes, laranjas, vermelhos e azuis, desenhando uma caprichosa manta de cores intensas e tropicais


– África, no seu melhor! Pensava, admirando o esplendor que se abria perante o seu olhar, maravilhado.


-Enfeitiçante, só pode! Bebi água do Bengo! Lá diz a tradição que quem dela bebe,fica com Angola no coração. E tem, sempre, de voltar


Enquanto sobrevoava o Luso (Moxico), capital do Leste (hoje, Luena), Catarina recordou as semanas aí passadas que marcaram os seus melhores tempos vividos em África. O Luso era uma terra especial. Bonita, limpa, de ruas bem estruturadas, com um dos melhores climas de toda a Angola. Limitada por arame farpado, é certo, mas não deixava de ser uma terra de charme, de paixão. Tudo se envolvia numa intensidade genuína e cultiva-se o intenso prazer de viver (sofregamente) talvez porque a ameaça de morte ecoasse fortemente nos sentidos atentos ao que se passava.


Ultrapassar os limites, assinaladas com o arame, era um puro acto de insensatez mas, Catarina, fê-lo por várias vezes, mesmo à noite, desafiando o que não devia ser desafiado. Vivia-se uma espécie de embriaguez e ousar era uma forma (estranha) de saborear a vida! Tempos depois, ao recordar as imprudências não podia deixar de sentir uma espécie um arrepio doloroso a percorrer-lhe o corpo.


Tinha arriscado muito. Demasiado. Recordou a noite em que por qualquer motivo não alinhou na transgressão e não ultrapassou a barreira de segurança para ir beber uma simples Cuca (cerveja angolana) a um pequeno lugar qualquer onde se juntavam cinco ou 10 pessoas e falavam, bebiam, ouviam música, num convívio agradável. Nessa noite não foi, e o carro onde ia habitualmente foi alvejado e, só por um incrível capricho da Natureza, as balas não feriram mortalmente, mas deixaram profundas marcas nos três ocupantes. Nunca mais tiveram coragem de ousar. Passaram a limitar-se a juntar e a espairecer o espírito, após dias de angústia. Só que o Luso era, em si, empolgante e só isso ajudava a sobreviver.


O Grande Hotel era o local onde Catarina se alojava sempre que se deslocava ao Leste, principalmente ao Luso. Era praticamente ocupado por militares e pelas suas famílias. Havia muitas mulheres de oficiais que permaneciam ali embora os maridos estivessem colocados em acampamentos distantes e se vissem muito espaçadamente. Naquela altura só a mulher do comandante do acampamento de S. João tinha a coragem de estar lá com o marido. Era uma mulher lindíssima, morena. Provocadora, q.b. Aprendeu a manejar a G-3 com perícia. Fazia sucesso quando passava pelas brisas do Luso e pensava-se como é que ela gostava de estar num sítio tão isolado e tão perigoso. Haveria motivos e deviam ser aliciantes.


Podia contar-se pelos dedos das mãos os pontos especiais que existiam na capital, capazes de prender atenções. Eram muito poucos na realidade mas eram vigorosos, emotivos, vivia-se diariamente coabitando com o imprevisto e com o medo. Chegou a estar-se muitas vezes no cinema com o barulho de morteiros estalando próximo mas, ir ao cinema, no Luso, era uma sensação única. Os espectadores que enchiam a sala, vestiam-se como se fossem para uma festa ou como se prepararem-se para um último encontro social. Nos rostos haviam sorrisos fixos, olhares alheados, mas a postura era firme. Cada um era um poeta da sua vida, capazes de escrever poemas nas estrelas, confidentes de ânsias, raivas, desassossegos e gratidões.


Por um lado, um desafio; por outro, saborear o prazer de ver gente, de sentir que não se estava só e essa socialização era benéfica. Mais, era necessária para se continuar a enfrentar as dificuldades que os tempos ofereciam. Nessa sala reuniam-se as forças vivas do Luso. Catarina era frequentadora fiel. Sempre que estava na zona e os seus trabalhos o permitiam, a jornalista despia-se da sua profissão e saboreava a noite. As noites do Luso tinham fascínio, mais do que se encontrava em Benguela -a cidade das acácias rubras- porque se a cidade da Praia Morena era muito maior, mais variada, mais citadina, o seu encanto, apesar de imenso, não conseguia igualar as sensações do Luso que parecia uma pequena pérola a brilhar ao lado de uma granada e, isso, conferia-lhe um sortilégio especial.


Além do cinema havia um restaurante, O Fragoso, perto da área do hotel, era um local elegante, habitualmente frequentado pela melhor sociedade. Lá se encontrava o médico, o engenheiro, o comandante, os oficiais. Jantar no Fragoso era como viver uma cena cinematográfica. Porquê? Porque havia muita cumplicidade no ar. Muitos segredos. Muitos amores e desamores. O facto de se viver diariamente no centro do perigo aumentava o apetite pela vida. Saboreava-se tudo, ao mais ínfimo pormenor.


Analisavam-se, pacientemente, pessoas e situações, em íntima cumplicidade, com a realidade e a imaginação: a senhora que fez uma operação plástica que lhe deixou a cara tão esticada que brilhava, sem vida e sem expressão; o médico que, dizia-se, tinha uns amores clandestinos; o capitão que sonhava com a mulher de um outro. A mulher do engenheiro que sonhava com uns braços que não eram os do marido. Amores desencontrados e proibidos eram pródigos naquela zona de guerra. As histórias eram muitas e os mexericos ainda mais.


Quando Catarina descia a rua florida que vinha do hotel até ao largo onde se situava o Rádio Clube do Moxico, a jornalista deliciava-se com o sopro de vento que lhe amaciava o rosto.


Vou sempre, sempre, lembrar-me destes momentos em que desço esta rua.


Ao longo das suas permanências no Luso, Catarina já tinha feito amigos. Ia frequentemente ao Rádio Clube e daí saía frequentemente para festas. A Adília, o Torres, o casal Ferreira, ajudaram-na a descobrir o encantamento da terra. E, passados anos, quando os recordou lembrou-se de uma festa que tinha decorrido nas instalações da Voz Amiga do Leste de Angola, em directo, com a ajuda da presença dos elementos da República O Trunfo é Kopos (militares portugueses, do destacamento de Engenharia, destacados na zona) onde vozes, canções, poesia, preencheram uma noite (inesquecível) que terminou com uma sessão de fados onde o alferes Maia cantou com alma e coração:


-Morte que Mataste Lira/Mata-me a mim/ Que sou Teu/ Mata-me com os mesmos ferros /Com que a Lira Morreu… A emoção era tanta que arrepiava. Estava-se ali, longe do mundo, ao sabor dos acontecimentos e das emoções. O Luso era como um vulcão: por vezes silencioso, adormecido, mas sempre ameaçando explosões exuberantes.

Dizia-se que o alferes estava perdido de amores por Helena, a mulher de um engenheiro destacado no Luso. Helena que, dizia-se, estava perdidamente enamorada por um director de uma firma aí sediada. Era uma mulher linda. Alta, esguia, com os belos cabelos louros que habitualmente prendia com uma fita de veludo negro. Falava-se muito de Helena mas quem a via, ao lado do marido e do filho, sempre muito serena e até com um certo ar de recato, ninguém desconfiava que dentro do seu coração havia conflito de sensações. Insatisfeita, ela não desistia de procurar quem desse maior entusiasmo à sua vida, mas, parecia, sem resultados positivos, apesar da sua aristocrata beleza. Helena acabou por regressar a Lisboa e continuou a viver a vida de uma mulher casada, bonita, um pouco apática, um pouco triste.


A guerra proporcionou sublimados estados de espírito em aventuras (enormes ou discretas) suficientemente capazes de alvoraçar corações e alimentar secretas e confusas esperanças. Os pensamentos sucediam-se freneticamente e, sem dar por isso, a viagem, prestes a terminar, acabou por ser um desfilar de recordações indeléveis. Catarina lembrou o Luso e alguns dos inesquecíveis momentos aí passados até que o aeroporto de Luanda começou a avistar-se. Quando se preparava para deixar o avião, Catarina ainda sentia a nostalgia das memórias que tinha acabado de reviver. Já na pista, assistiu ao desembarque dos feridos e a todos desejou que vencessem a dura batalha que tinham pela frente. Esse era o lado dramático do Luso. A dor quando batia à porta era dura, era um desafio aos limites da capacidade de cada protagonista nesse cenário de guerra que exigia ânsias exageradas de heroicidade. Quantos heróis, Catarina, não conheceu que sucumbiram exaustos e loucos na voracidade bélica que atordoava os sentidos e matava vidas?…

O homem nunca encontrou uma definição para a palavra liberdade.
(Abraham Lincoln)

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2 responses

  1. Pois eu também estive lá pelo Leste, na tropa, e desloquei-me algumas vezes (poucas) ao Luso.Infelizmente para mim, não consegui conhecer esses "meandros" maravilhosos que tão bem descreve.Revi a cidade nas suas palavras.Adorei as descrições que faz.Um abraço de um ex-militar que peregrinou algures pelo Leste (Lucusse-Lunhamége, Lumbala).

    Outubro 27, 2009 às 4:28 pm

  2. MEB

    Quem passou pelo Leste de Angola, apesar de desconhecidos, estão ligados pela magia do espaço que envolvia na beleza e no drama que se desenrolava ali ao abrir da mão. Nem imagina como fiquei contente por ter um comentário de alguém que passou por localidades com tanto impacto. Só quem conhece. E quem conhece, não esquece! Retribuo o abraço. Com alegria.

    Outubro 27, 2009 às 7:50 pm

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