Archive for Novembro, 2008

AS PROFESSORAS QUE SALVAM VIDAS

Não querendo enegrecer a noite fria que convida à fuga para o cantinho aquecido que pede um bom livro, um bom filme, boa música, saboreando uma caneca de cacau muito quente, -rodando maquinalmente entre as mãos- ou, apenas, interiorizações calmas mas profundas, recordo, a partir de um e-mail que recebi como foi desastrosa e sofrida a última época de férias em relação a piscinas e a bebés. Cessaram mais de oito vidas ainda por viver. Apetece dizer: desnecessariamente.


Pela crise que se vive não é tempo de relembrar a quem nos governa -continuam a enfermar do erro de se manterem longe, distantes do povo que os elegeu. Não sabem chegar a ele- como seria importante existirem mais piscinas em Portugal. Convite (saudável e apaziguador) aberto a pessoas de todas as idades, começando pelos bebés, pelos adolescentes, pelos adultos e pela terceira idade que anda por aí a desmaiar nos dias de solitárias solidões.

Apostar nas escolas desde o primeiro ano, no desenvolvimento físico, era um dos nove pontos absolutamente necessários para surgisse a primeira de futuras gerações viradas para o futuro e não para a violência, fruto muitas vezes de ruas sem saída onde impera a ociosidade e a impreparação. Se se quer salvar um país tem de se começar nas salas de partos (e não nas ambulâncias-maternidades).

A finalidade de hoje é falar do vídeo www.childdrowningprevention.com
que recebi por e-mail. Uma preciosidade. Merece ser partilhada. Veja e espalhe a mensagem (que, claro, não é portuguesa). Aproveito a oportunidade para saudar todas as professoras de natação deste País que, diariamente, nas piscinas, em clubes por vezes demasiado caros, transmitem os seus conhecimentos que podem salvar vidas. Parabéns a todas, a começar pela minha filha Isabel que é o orgulho de qualquer mãe. Para ela cada aluno é uma vida a necessitar, no seu campo de ensino, de técnicas e saberes profundos que façam dele um saudável e vigoroso sabedor, confiante e enérgico que, sempre que entrar na água, esteja apto a deslizar nela ou a salvar quem, perto de si, precisar de ajuda.

Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades
(Epicuro)


FERNANDO PESSOA

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.
(Fernando Pessoa)


UMA CANÇÃO PARA TODA A VIDA

Conheci Izhar Cohen quando veio a Portugal, ainda sob os ecos da vitória do 23º Festival da Eurovisão da Canção, realizado em Paris, em 1978,onde Israel venceu pela primeira vez com A-Ba-Ni-Bi, tema interpretado por Izhar Cohen e Os Alphabeta. Portugal esteve representado pelos Gemini, com a canção Dai-Li Dai-Li- Dou (autoria de Carlos Quintas e Vítor Mamede), conquistando o 17º lugar.

Recordo-me que as medidas de segurança em torno do grupo israelita foram extremas mas mesmo assim como eram meus entrevistados para a Nova Gente, acompanhei-os com relativa facilidade. Estive presente no jantar que lhe foi oferecido e ainda recordo que dançamos ao som das suas canções, numa noite muito agradável. Fiquei fã de Izhar Cohen que voltou mais vezes ao palco da Eurovisão.


Todavia, a canção mais bonita, uma canção para toda a vida, foi a que ele levou ao 18º Festival, creio que de 1973, realizado no Luxemburgo (Portugal defendeu Tourada, na voz de Paulo de Carvalho). Sobre ela ouvi há pouco uma definição preciosa que me inspirou a inserir este post e a recordar Izhar. Como dizia o Pedro :


– …É mais bonita que todas as outras que conhecemos. É quase um fado israelita, com uma sensação de Amália mas, sobretudo, muito Paulo de Carvalho e se calhar, pelo som das palavras, cheia de Ary dos Santos. Acho que nunca na vida vou deixar de ouvir esta canção.

Ouçam-na: http://br.youtube.com/watch?v=6CjuLfMpx78

*

Alguns homens vêem as coisas como são, e dizem: Porquê? Eu sonho com as coisas que nunca foram e digo: Porque não?
(George Bernard Shaw)


O BOM VISIONÁRIO NO MUNDO REAL


Gosto de olhar para esta imagem de Barack Obama, o Presidente-eleito dos EUA. Ela foi captada numa das suas intervenções quando a chuva caiu sem dó nem piedade em cima dele e de todos os que entusiasmados o escutavam. Acho, até, que esta foto se cola bem a um certo ar messiânico que o Presidente parece ter conquistado. Encharcado até aos ossos, como orador excelente que é não perdeu nem a compostura nem sequer o ritmo quer da voz quer da linha de pensamento. E foi assim que de obstáculo em obstáculo, conquistou o direito à Casa Branca.


É muito interessante ir seguindo pela Net (no portal do governo) o que Obama e a sua (excelente) equipa estão a fazer até chegar à Presidência. Estou a gostar muito dos critérios que Barack está a seguir para formar o seu governo, demonstrando que a prioridade é nacional, até mundial e não partidária. Já está a fazer história que, no final do século, será lembrada pela maioria dos norte-americanos e presidentes incluídos. Só por quem é, de onde veio e como chegou à vitória, já entrou mesmo para a História e, ainda, não pisou oficialmente a Casa Branca!


Só pela forma como está a formar um governo, com as prioridades nacionais acima das políticas, já está a criar bons precedentes que serão referência de presidências futuras, mesmo antes de começar a sua. Só lhe falta agora começar a governar e provar que, apesar de tudo, não é apenas o mito que fascina, mas é mesmo um bom visionário que habita o mundo real e que fará (espera-se) melhor do que pior, mais medidas concretas que erros e reconduzirá a sua Nação ao futuro que, talvez (ainda) não tenha perdido.

Uma vida é uma obra de arte. Não há poema mais belo que viver em plenitude
(Georges Clemenceau)


HILLARY – A SECRETÁRIA DE ESTADO


O que de início parecia impossível, Hillary Clinton (primeira dama dos Estados Unidos de 1993/2001) não estava (em Fevereiro) desafogadamente sorridente nas tabelas das preferências do eleitorado. Pelo contrário, quem sorria (abertamente) era o desconhecido senador do Illinois de nome Barack Obama que nos excelentes discursos distribuiu empatia pela assistência, onde os jovens foram o seu grande e inesperado trunfo. O desfecho de 4 de Novembro foi impressionante pelo número de americanos que nas urnas fizeram uma escolha histórica: elegeram um afro-americano para a Casa Branca.

Todavia, o percurso de Fevereiro a Novembro foi entusiasmante, pleno de mudanças nas preferências quanto ao resultado já que metade da América não queria Hillary (inteligente, forte, segura) que, à partida, não esperava tão alto nível de rejeição por parte dos americanos. A outra metade não queria Obama (jovem, visionário, carismático e excelente orador), que surpreendeu pela positiva, apoiado por uma campanha estonteante e conquistando apoiantes de peso. O Republicano e herói de guerra John McCain defendia a continuação das tropas americanas no Iraque e tinha a “bênção” de Bush (os americanos estavam saturadas da sua Administração…), mantinha a esperança de vencer os Democratas mas ao escolher Sarah Palin, a governadora do Alasca que se revelou um desastre, deve ter reconhecido que foi o seu maior erro.

A 20 de Janeiro Obama entrará oficialmente na Casa Branca com o seu staff (escolhido rigorosamente e analisado ao mais ínfimo pormenor) e nele estará incluída a ex-senadora de Nova Iorque (que nas primárias fez contra Obama uma campanha renhida, frenética), a secretária do Estado que já foi primeira-dama da América, durante oito anos. Podia ter sido vice-presidente mas o próprio Barack disse que não. Fez bem. A diplomata Hillary ainda tem grandes voos pela frente mas, pertencer à equipa de Obama é um orgulho. Toda a equipa vai saborear a sensação de trilhar um caminho novo virado ao futuro, ao lado de um Presidente que soube concretizar um sonho secular. E não me admira ver, em 2016, Hillary lutar (novamente) para regressar à Casa Branca.

Um ser humano só cumpre o seu dever quando tenta aperfeiçoar os dotes que a Natureza lhe deu
(Hermann Hesse)