O ARAUTO DE UMA NOVA ERA

Depois do luminoso banho de esperança que deu ao mundo, Barack Obama, na sua primeira conferência de imprensa como Presidente eleito, não conseguiu deixar de transparecer (compreensivelmente) a inexperiência de lidar em directo, frente aos jornalistas, na abordagem de temas inerentes ao cargo. Não que ele não esteja habituado à imprensa (é um dialogante nato e um orador inspirado, até um pouco messiânico) mas acusa (ainda) o desconforto de lidar com imprevistos ao aperceber-se que está na primeira posição abaixo do céu, na hierarquia dos Estados Unidos, e um pouco (ainda) do mundo (os ecos da vitória mostraram-lhe como globalmente o vêem).
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Obama tem potencial para fazer tudo aquilo que os americanos e o mundo pensam que Kennedy (admiro-o, note-se. Ele abriu fronteiras) fez; o que Reagan fez, até mais mas deu-se menos -vai-se apercebendo ao longo dos tempos-. Clinton, fez um pouco mais ainda e todos usufruímos disso e, entretanto, já agradecemos. Sobre Obama recaem expectativas que estão mais ao nível do Papa João Paulo II do que de qualquer novo Presidente dos EUA, não porque Barack tenha já feito algo de assinalável (tirando os 22 meses de luta e empenho, claro), nem mesmo como Senador a não ser projectar carisma e comunicação, mas porque inspira muito e é essa, a missão primordial que o dom que tem o obrigará: ser o ponto focal das vontades para poder suportar, em valores e princípios, o que se não fosse a oportunidade superior que tem, seria apenas um mero e só, mesmo que bom, projecto político.

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Falta reunir a sua equipa (conta com o irascível mas competentíssimo Rahm Emanuel, na foto) mas Obama já está a dar os primeiros sinais de uma nova visão: mostra intenções de ir buscar aliados e opositores, entre todos os americanos que percebem que a nova era é, ainda, de poder mas já não de autoritarismo; é, também, de ambição mas não de ganância e é, sobretudo, de humildade colectiva que possa permitir a um país que quase gasta e suja mais sozinho do que praticamente o resto do planeta, a mudar hábitos, vícios, atitudes, perante o mundo que de uma forma geral ignora liminarmente que no centro dos EUA se concentre gente a mais, muitos a não conhecerem a geografia litoral da América, quanto mais o que existe para lá do Pacífico ou do Atlântico.

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No mesmo tempo de compasso, Obama terá que consagrar as minorias não como grupos de influência cada um por si, mas como tecido multicultural e fundador da verdadeira e boa Babel do Terceiro Milénio e que, pelo valor do conjunto, beneficiará aos poucos cada um de nós; americanos, sobretudo os que sejam mais desfavorecidos, ou pelo que não têm, ou pior, pelo que pensam e fazem e que por isso têm, mas não sabem ou não querem saber como mudar. Há um pouco de Ghandi dos guetos, na aura política de Obama, que me leva a pensar assim. Entretanto, não será ingénuo (e que bom sinal é se assim for) Obama querer demarcar-se dos seus próprios lobbies de apoio, aglutinando outros de diferentes tendências e crenças.
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Ele sabe que o governo universal que pode estabelecer sobre a cabeça de todos os americanos depende de se afastar quanto antes, agora que ganhou o lugar, dos fortes compromissos que a campanha mais cara da história dos EUA, inevitavelmente, lhe coloca: compromissos que só conseguirá afastar o suficiente com a ajuda imparável dos ideais maiores, de sentido nacional e prioritário, os das acções que darão a nova vocação ao Ocidente, já não a de dominador mas antes de denominador comum, já não de farol que orienta a peso de dólares mas antes de luz esclarecedora que partilha conhecimento com o mundo para o cativar, não o forçando à sua doutrina e, de certeza, com o compromisso de nunca mais ser uma potência arrogante e isolada mas, sim, o parceiro rico e preparado de um novo grupo mundial que terá mesmo que ter ambições imensas e desmedidas como a promover a nível mundial o devolver as calotes polares aos nossos netos ou as pequenas reformas de dignidade a todos os nossos avós, quase metade da população mundial dentro de pouco tempo.
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A força de Barack para tudo isto é a de, se for também o visionário que parece ser, já ter percebido que os Estados Unidos como nação empreendedora isolada, inovadora e pioneira, tal como a que temos conhecido de há cinco gerações para cá, desde que nos deu a luz eléctrica, o Canal do Panamá, a Bolsa ou a Coca Cola, acabou! Podemos não ter dado bem por isso, mas acabou e cabe-lhe a ele –o Obama do renascimento americano-, a oportunidade de saber propor ao mundo os novos EUA, num feito pacífico, progressivo e inteligente que se poderá vir a escrever na História do Planeta com o retirar dos EUA da liderança única, superpotente e muito desgastante, permitindo o despontar de uma nova era de equilíbrio tenso entre mega potências transplanetárias como a do Ocidente, a do Oriente, a Muçulmana e outras mais ou menos fortes, mais ou menos regionais, mais ou menos étnicas, mas todas, inevitavelmente, niveladas ainda neste tempo da nossa geração, pelo menos na luta do século: a luta da água, mãe de todas as futuras, num novo contexto geoestratégico em que os EUA e, talvez só estes, poderão assumir o papel único de líder de soluções ambientais ou de novas políticas económico-financeiras socialmente sustentáveis.
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Por coincidência e ironia exactamente aquilo que têm arrogantemente conseguido rejeitar nas últimas décadas será indicador do apelo primário e intuitivo que Obama terá de fazer à mudança, por dentro, de toda uma nação de mais de trezentos milhões de consumidores compulsivos de recursos, matérias-primas, energia, até hoje sempre por excesso.
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Por incutir este potencial telúrico pela mudança, até entre os mais improváveis, está a encontrar possíveis aliados, incluindo um dos potenciais inimigos, o Irão e o seu Presidente que congratulou o novo Presidente dos EUA e fê-lo porque sabe que Obama tem disponível como nunca antes, a energia contida neste povo de vontades, iniciativas, apetência para o risco, muitas vezes a favor de quem tem mais medo e, por isso, é mais fraco (a começar pela nossa Europa). O Presidente do Irão congratulou-o também para, subtilmente, retribuir ao povo americano ter-lhe dado a possibilidade de ter ido (há meses atrás), a convite de uma Universidade norte-americana, em solo sagrado dos EUA, falar sem censura nem prisão, como provavelmente no seu próprio país (o mal e o pior do modelo americano de Bush). Temperou, no entanto, a galhardia com a arrogância no tom curto de recomendar a Obama abrir mão de toda a actual política para o Médio e profundo Oriente. O Obama que lhe respondeu bem e de imediato foi ainda o Obama intuitivo, o dos valores maiores e não o das políticas que implementarão esse valores e que vacilou na tal primeira conferência de imprensa. O Obama intuitivo, dos valores superiores, disse-lhe que não mudava a política que ainda é a de Bush, sem ver eliminadas as ameaças contra as quais Bush continua a lutar (de forma errada ou certa) mas continua. Porque elas existem e porque a opção mais fácil de as ignorar nunca foi a americana, essa é a verdade.
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Assinou, assim, quase sem se dar por isso, a primeira acção de política estratégica, ainda sem ter gabinete para o efeito, encaixando sozinho a consequência e a reacção mundial que aceitou a tónica, compreendeu o tom e antevê agora o Obama mais real e menos ideal que vai afirmar assim que levantar a mão da Bíblia, na tomada de posse, no dia 20 de Janeiro. Até o Yoda de todos os libertadores mortos, vivos e ainda não nascidos das Américas Latinas e das Áfricas, libertas da mão Ibérica, Fidel siempre, o recomenda e atira-lhe mais conselhos do que avisos como se tivesse descoberto um neto perdido, vindo do Quénia.

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Obama sabe que pode quase tudo porque está num país que fez muito de errado nos últimos 30 anos mas é, também, o mesmo país que pode fazer, sabe fazer quase tudo, e tem espírito de iniciativa para aglomerar do dia para a noite, multidões nos 52 Estados que tem sob a mesma bandeira e que, como conjunto (não nos esqueçamos) é a maior potência de investigação e tecnologia do mundo, a maior entidade económica e financeira de sempre na história da humanidade, pelo volume da sua riqueza, da sua dívida, do seu investimento e do seu mercado interno maior que a Europa inteira mas, também, porque quase tudo o que somos e vivemos hoje, económica e financeiramente ou foi inventado por eles ou posto por eles em prática, mesmo que inventado por outros mas que tiveram, ou medo, ou falta de dimensão para o aplicarem.

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Obama sabe que é também o país que devolveu à Europa o rumo que os europeus pediram durante as últimas duas Grandes Guerras Mundiais e, pelo caminho, foi-nos dando o nylon, vendeu-nos hambúrgueres, impôs-nos o John Wayne, como modelo de campeão, colocou um boneco do Walt Disney em cada casa, sempre facturando lucro na relação e impondo conceitos como se o berço da cultura Europeia quase não existisse. Afinal, a civilização Indiana -ainda mais antiga-, não tivesse importância ou a China multimilenar fosse mais outra peça num dos seus museus, tal é a força do empreendorismo, da livre iniciativa e da liberdade critica ao ponto deste conjunto de características tender facilmente para o imperialismo, talvez a única forma de manter o corpo imenso do modelo americano, mas seja o que for é, sem dúvida, um motor de evolução que Obama quererá utilizar a caminho da sua visão de sociedade e de futuro.

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Obama sabe que pode porque o povo que navega os EUA é o mesmo que se uniu nos mais elevados (se calhar de sempre e para sempre como nem Churchill viu) índices e iniciativas de apoio colectivo em torno do Presidente Bush que teve que interiorizar sozinho e num único momento, essa má catarse nacional e mundial (provavelmente o seu melhor contributo para a História que se escreverá daqui por duas ou três gerações) quando lhe esmagaram as Torres estômago adentro.

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É o mesmo povo que teve a capacidade, o espírito pioneiro e honesto para conseguir um feito ainda hoje futurista: o de ir e voltar à Lua, várias vezes, num tempo que já lá vai há tanto que, metade da população mundial que hoje existe ainda não tinha nascido, e que agora tem de conseguir atingir esta mesma capacidade de identificação nacional em torno de objectivos concretos para, em menos de duas legislaturas, ultrapassar a fase da auto crítica nacional e a empresa incomensurável de estabelecer e consolidar nada menos do que um novo rumo para o país poder assumir, já sob uma nova fortaleza nacional, a sua nova vocação mundial.
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Obama sabe que pode porque tem um povo que enche estádios de futebol (americano claro) e convida estrelas de rock para cantarem o hino nacional numa explosão incontida sob cada pele de todas as cores como em nenhum outro lado se faz por iniciativa própria, por sabor e sentimento, por arrepio e por ideal, na afirmação de um modo de vida próprio que para eles é um sonho: o sonho americano, na terra americana! Obama saberá ainda mais mas só não sabe (ainda) se o sucesso da sua cruzada futura que agora está a começar, será suficiente para eclipsar o feito histórico de ser o primeiro negro na Presidência mais poderosa do mundo. A acontecer esse eclipse, será a prova de que, entretanto, se tornou incontestavelmente no arauto de uma nova era no mundo.

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O sonho dos que estão acordados é a esperança
(Carlos Magno)
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