MANAUS – A DIVA DA FLORESTA

Confesso que tenho uma ideia idílica de Manaus (Brasil), desde há muito tempo, mas a excelente série, creio que da Globo, Amazónia, voltou a reacender a chama do fascínio na minha fértil imaginação. Frequentemente projecto para mim própria a noite que deve ter sido deslumbrante, esplendorosa, emotiva e provocadora, de 31 de Dezembro de 1896, que assinalou a inauguração do Teatro Amazonas (no apogeu do Ciclo da Borracha), uma verdadeira pérola no calor sufocante e exótico da floresta. Deve ter sido algo mais do que gratificante. Foi, seguramente, selectiva, povoada por pessoas maravilhosas, vestidas a rigor onde o frou-frou das sedas de elegantes damas, contrastava com o rigor dos fatos masculinos, num acontecimento mundano e artístico, ímpar na região.

Convidados e artistas, entre eles a soprano Maria Bosi, levados pela mão do maestro e empresário Joaquim Franco, surpreenderam-se a cada descoberta no magnífico, majestoso edifício, que estavam a conhecer na noite que assinalava o terminar de um ano, já de si um tradicional momento festivo. Mas aquele, em Manaus, deve ter superado tudo o que a mais inspirada criatividade tivesse capacidade de sonhar. Nessa noite realizou-se apenas um concerto, mas a 7 de Janeiro de 1897 deu-se início à temporada lírica que durou três meses e contou com 50 espectáculos. Que riqueza de momentos devem ter sido, vividos numa cidade próspera financeiramente, é verdade, graças ao triunfo do látex da seringueira, produto que a Europa e a América disputavam e valorizavam. Vida económica desafogada mas sem vida cultural. Que ousadia foi necessária para, em1881, o deputado Fernandes Júnior apresentar um projecto de construção de um Teatro (ainda hoje é um dos mais bonitos do mundo) capaz de receber uma sociedade exigente que sentia a falta de espectáculos, companhias e artistas que triunfavam em plateias internacionais.

 

O projecto arquitectónico escolhido (fonte Wikipédia) foi o da autoria do Gabinete Português de Engenharia e Arquitectura de Lisboa, em 1883. O início das obras foi em 1884 mas viria a sofrer algumas paragens e só no governo de Eduardo Ribeiro, recuperou dinamismo e entrou na recta final. Arquitectos, construtores, pintores e escultores da Europa foram levados para a Amazónia e, em conjunto, realizarem uma verdadeira obra de arte: lindíssima, luxuosa, arrebatadora onde se destacava uma salão nobre, com características barrocas; a pintura do tecto A Glorificação das Belas Artes na Amazónia, da autoria de Domenico de Angelis, resplandecia. Cristais de Veneza, quadros de pintores de renome, veludos, brocados no Teatro Amazonas (com capacidade para 685 pessoas), a prova viva da prosperidade, na fase áurea da borracha. Na altura, a inesperada iniciativa (Ópera na selva!) fascinou o mundo rendido à maravilha concretizada em Manaus, cidade que despertou para o mundo da Arte com um vigor e uma elegância exemplares.

Ao longo dos anos passaram pelo palco as melhores companhias de Ópera; cantaram-se e tocaram-se obras dos maiores compositores; dançaram os bailarinos mais disputados. Sucederam-se noites de apoteose, de encantamento, num local que enfrentando o tempo e a história, ainda hoje mantêm a traça original e se mostra com a opulência e o brilho com que se abriu para uma sofisticada plateia, na noite de 31 de Dezembro de 1896 que, rendida, bateu as primeiras vibrantes palmas que ecoaram pelos rios e recantos da floresta Amazónica que, sobressaltada, tentava descodificar os sons que se libertavam das paredes do edifício do novo Teatro.

 

 

Rezam as lendas que ainda há madrugadas tropicais e perfumadas, com sons de vozes cristalinas, entoando melodias imortais que se espalham, misteriosamente, pelos luares grandiosos, banhando espaços onde há 112 anos só havia árvores…

 

 
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