VAI GARRAFINHA, ENTREGO-TE NA MÃO DO ACHADOR

Ao ler a última revista Única, parei no artigo de Alexandra Simões de Abreu, Mensagens na Areia, e senti que ali estava, à minha frente, uma realidade que pertence ao mundo dos meus sonhos e que nunca realizei, apesar de não se revestir de uma impraticabilidade inultrapassável.

É um sonho simples! Nunca o concretizei não sei porquê. Para não lhe retirar o encantatório do sonho? Por, no fundo, não ser um sonho com a força suficiente para ser um sonho que exija acção? Não sei. A verdade é que aos 71 anos ainda não escrevi uma mensagem para colocar numa garrafa vazia que (adorava) galgasse Oceanos e fosse parar às mãos de um desconhecido que o Universo escolheria para mim. Talvez ainda não seja tarde.

Neste artigo havia seis mensagens escritas por seis personalidades distintas. Gostei de todas mas deliciei-me com esta sensibilidade da Lídia Jorge:

Vai, garrafinha, vai e não voltes mais. Tudo o que sabemos não encontrámos, escavámos. Tudo o que não sabemos, desejámos e não temos, e o que não viajámos, não foi por não sonharmos, foi por não podermos. Das garrafas que enviámos, salvou-nos o pedido que fizemos. A mensagem que escrevemos sempre teve menos letras do que aquelas que cantámos e o amor, que nela imaginámos, sempre foi mais longe do que os beijos que tivemos. Por isso, vai garrafinha, entrego-te na   achador e não lhe contes nada, nem da imperfeita vida desta praia, nem do nosso coração, um grão de sangue pulando desencontrado, para que possa imaginar que a garrafa caiu da algibeira de um deus adormecido e tem a poção mágica da viagem.

Vai, assim, toda de vidro, fulgurante, iletra, transparente, e a imaginação de tudo preencher, que lhe seja o motor de uma outra realidade onde não exista diferença entre o ouro e a areia, o pertencido e a pertença.

Certa vez, eu estava sentada na praia do Macuti, na Beira, Moçambique, quando reparei que as ondas traziam uma garrafa…

(Lídia Jorge) 

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2 responses

  1. Curiosamente estou na mesma situação. Sempre desejei fazê-lo mas nunca o fiz, nem sei porquê?

    Agosto 19, 2011 às 3:03 pm

  2. Guilherme, pois é! Como é que uma coisa sonhada não é concretizada? Também não sei responder mas evidencia uma notável falta de determinação (no que me toca). Se nos decidirmos a fazê-lo, realizamos o sonho. Será que não nos queremos distanciar do sonho? Será que o queremos no baú das reservas? Qualquer dia liberto a minha mensagem, Faça o mesmo.

    Agosto 19, 2011 às 7:08 pm

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