FIQUEI COM A LEVEZA DA FOLHA

Quando a luz matizada do Sol se preparava para abraçar o mar, subi a  rocha solitária, majestosa, e olhei pausadamente o horizonte. Uni o polegar ao indicador, arqueei o corpo e invoquei as forças do Universo. Sentia-me poderosa e livre, qual ave-do-paraíso prestes a levantar voo. O tempo sentia-o suspenso. Parado. Nem o vento respirava. A serenidade parecia envolver o mundo naquele começo de noite mágico, estonteante de encanto,
soberbo de magia. Electrizante e iluminador.

Do céu caíam partículas cintilantes, poeira de estrelas, que rapidamente cobriram a rocha, deixando-a como um trono cravado num invulgar rochedo. Depois, o céu abriu-se num tom púrpura, cintilando entre o laranja e cor violeta em soberbas nuances. Foi um estonteante festival cósmico, envolto em sons harmoniosos. O desejo de absorver tudo o que via e o querer que algo me fosse revelado, agitava-me.

Baixei os braços e com as palmas das mãos viradas para cima, esperei por brisas renascidas e desejei que uma chuva macia me envolvesse em âmbares e cristais.

Fiquei, como diz a lenda védica, com a leveza da folha, a graça da corça, a alegria do Sol, as lágrimas do orvalho, a inconstância do vento, a timidez da lebre, a dureza do diamante, a crueldade do tigre, a doçura do mel, o calor do fogo, o frio do gelo, o perfume das rosas. Rodeada de luar, energias e exércitos de átomos, vindos do agora e dos confins do tempo, inspirei as vibrações do Universo e entrei em mundos poderosos e secretos. Luminosa e leve, tal como Fernão Capelo Gaivota (que vive em cada um de nós).Olho as minhas asas alvas, adquiridas no Rochedo da Transformação e, então, tal como diz Gaivota, quebro as correntes do pensamento e deslizo sem pudor neste voo da noite.

Desafiadora, senti-me especial, divina. Fernão Capelo lembrou-me (uma vez mais) que não há limites e a necessidade de superar as nossas fragilidades, medos é lançarmo-nos nos voos da descoberta e da realização. Ao despedir-me do Gaivota, que se preparava para voar dois mil e quatrocentos metros e aterrar em voo picado, ouço-o gritar: não te esqueças nunca de que a verdadeira lei é aquela que conduz à Liberdade.

Todas as maravilhas de que precisas estão dentro de ti

(Sir Thomas Browne)

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4 responses

  1. “Escolhemos o nosso próximo mundo através daquilo que aprendemos neste. Não aprender nada significa que o próximo mundo será igual a este. Com as mesmas limitações e pesos de chumbo a vencer.”

    Cada linha, cada palavra, lições de vida: sempre se aprende algo em cada leitura de “Fernão Capelo Gaivota”!…
    Beijinho
    Quicas

    Setembro 7, 2011 às 11:20 pm

  2. Eu, sem dúvida, pertenço ao grupo dos que gostam e aprendem (mesmo) com Fernão Capelo Gaivota que nos ensina a quebrar as grilhetas de limitações e receios. O meu texto foi inspirado na admiração que tenho pelo seu desafiar de limites, pela grandeza do seu querer e da luta constante e dolorosa de superação.

    Setembro 8, 2011 às 3:44 pm

  3. Amiga Elvira!

    “Fernão Capelo Gaivota
    Aqui será a areia fina…a falésia…onde, entre voos, poisarei para descansar e meditar, depois voltar a voar entre o azul do mar e o azul do céu.”

    Muitos parabéns neste dia tão especial.
    Beijinhos

    Setembro 10, 2011 às 6:25 pm

  4. Obrigada, Ná. Foi um dia muito bom. Esses seus voos numa zona paisagistica de tanto encanto serão, seguramente, muito motivadores. Continue. Sempre.
    Beijinhos

    Setembro 11, 2011 às 7:44 pm

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