FUI PIRATA, RAINHA, MARINHEIRO, NA CONSOLAÇÃO

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Deveria ter cinco ou seis anos quando fui pela primeira vez à praia da Consolação (perto de Peniche). Vínhamos (eu e os meus tios, Rita e Francisco) de Castro Daire e sei que quando chegávamos a um posto de polícia (redondo, pintado de amarelo e branco) se mudava para uma carroça puxada por um burro que nos levava (lentamente) até à casa branca com puxadores verdes de vidro transparente (sempre me fascinaram),situada mesmo atrás da igreja. A minha primeira aventura começava logo aí nessa viagem com o Sol e o vento a fazerem sentir a liberdade do Verão.

 Durante sete anos fomos frequentadores habituais da praia, nos meses de Setembro e Outubro. No último mês a praia era só nossa. A barraca branca de largas listas azuis dominava todo o areal que ligava a Peniche. Aí, era tudo mais calmo. Limitava-me a ir à praia, tomar banhos de Sol nas rochas situadas na encosta do forte e à tarde descer até à praia dos pescadores, um pouco distante, que era de uma água tão transparente que deslumbrava. Chegar lá não era fácil mas valia a pena.

 Nessa época havia a igreja, umas casas brancas com umas grandes varandas debruçadas para o mar esmeralda, à direita. À esquerda havia umas pouquíssimas casas, um café e contornando-o situava-se outra casa imponente, creio que pintada de azul e branco. Este era o cenário. Contava-se pelos dedos as casas da Consolação de águas fortes mas apetecíveis.

 Mas (aqui é que está o “segredo”) junto dessa casa azul, por cima de uma encosta enorme de areia, havia um banco de pedra. Sózinho. Altaneiro, dia e noite olhando quele horizonte deslumbrante. Sentava-me lá muitas vezes. Olhava Peniche, as Berlengas, olhava o Forte (as ruínas), e era senhora daquele império de fascínio, era a rainha daqueles mares. Pelas manhãs, ao lado desse banco, deixava-me deslizar pela imensa duna de areia e assim chegava à praia para mais um dia de sol e de mar. Assim começava a festa.

 Em Setembro, juntavam-se alguns miúdos da minha idade e, então, lá íamos para as ruínas do Forte e os jogos começavam. As ruínas eram perigosíssimas, reconheço, tinha buracos com uma altura que só de me lembrar (ainda hoje) me dão tonturas. Mas era precisamente aí que brincávamos: aos barcos, aos piratas, aos naufrágios (havia com frequência). Pulávamos e saltávamos despreocupadamente. Fazíamos prisioneiros e lá ficavam sentados ao lado de alguma pedra que nos parecia mais aterradora. Havia, ainda, os assaltos às dunas. Escondidas por elas (brancas, de areia fofa e altíssimas), brincávamos a tudo e mais alguma coisa.

 Além do esconde, organizávamos teatros, pregávamos partidas. Tanto eramos princesas como cantores de ocasião. Molhávamos alguns incautos e, principalmente, riamos, riamos, por tudo e por nada. E nos dias que nos levávam a Peniche pelo areal era ouro sobre azul, apanhávamos sempre coisas lindas (para nós) que o mar trazia.

 Um dia, registou-se um naufrágio enorme e nos dias seguintes foi um corrupio para a beira-mar. Era de ficar sem fôlego e escolher era quase impossível, ficávamos baralhados com tanta oferta. Uma vez apanhei uma bola de vidro (devia ser das redes), tive-a anos e era um tesouro que nunca empalideceu. Dormia com o ronco do farol das Berlengas. Sonhava com as ondas da Consolação, com as suas areias, dunas e ruínas e era um sono sempre emotivo.

 Hoje, quando saio de casa, há dias em que olho para a direita e vejo, ao longe, o recorte das Berlengas. O meu coração agita-se e sorrio. Volto a ouvir o roncar grave e permanente do farol cortando noite, nevoeiros e temporais. E tudo volta ao tempo em que na Consolação havia, apenas, meia dúzia de casas e uma magia que nenhum Inverno ofuscava. Em nós, o entusiasmo fascinante perdurava. O outro Setembro estava quase a chegar.(Maria Elvira Bento)

As nuvens mudam sempre de posição, mas são sempre nuvens no céu. Assim devemos ser todo dia, mutantes, porém, leais com o que pensamos e sonhamos; lembre-se, tudo se desmancha no ar, menos os pensamentos
(Paulo Baleki)

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2 responses

  1. vitorchuva

    Olá, Maria Elvira!

    A mente é mesmo assim: de repente, sem aviso, convida-nos a visitar o passado, e nós lá vamos, encantados – ainda que possamos termo-nos só a nós por companhia…
    Bonitas memórias, como se fossem de ontem, contadas com visível gosto e detalhe.
    A Peniche, cheguei num navio da Marinha, curiosamente em fins de Setembro, e lá permanecemos duas semanas, tendo desembarcando naquela pequenina enseada para visitar a ilha mais o farol – que ao tempo ainda tinha faroleiro…

    Bonito relato.
    Bom fim de semana, com um abraço
    Vitor

    Fevereiro 15, 2013 às 11:55 pm

  2. Maria Elvira Bento

    Boa tarde, Victor. Pois foi, deambulei pelas memórias e voltei a ser criança na beleza intensa da Consolação. Obrigada pela sua simpatia. Um abraço

    Fevereiro 19, 2013 às 5:16 pm

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