JÁ VENCI SOLIDÕES E SAUDADES

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Não há fúrias que me amedrontem. Já senti o lado furioso da vida e renasci renovada. Passei por furacões, tempestades de neve, de areia, sobrevivi à dureza de monções, de ventos invertidos, de chuvas calamitosas. Sei o que é o cheiro da guerra, do perigo à espreita, escondido, traiçoeiro, inabordável. Sei o que é olhar para o nada e não sentir a respiração que nos alimenta a vida. Sei o que é estar numa fila imensa com um copo e um prato na mão à espera que chegue a ração que nos cabe num dia de sorte. Sei o que é tomar banho no esguicho de um cano de rua que alguém furou para que os retornados se refrescassem. Sei o que é dormir em tábuas apenas com um cobertor dado por umas religiosas apiedadas com a situação. Já contei tostões e já deixei de comer o que me apetecia por o dinheiro não chegar. Já tratei por tu a desumanidade da vida, mas nunca deixei de me deslumbrar com o Universo.

Nunca virei as costas a uma luta. Nunca deixei de acreditar mesmo nos instantes de iminente desfalecimento. Nunca traí, nem mesmo aqueles que me traíram. Levantei-me sempre que caí e lambi as minhas próprias feridas. Aprendi a fazer das estrelas minhas cúmplices. Memorizei o encantamento do Sol quando nasce e como capta a beleza dos Oceanos. Das árvores fiz os meus templos e dos sonhos tracei metas, muitos esfumaram-se e voaram, mas nunca deixei de sonhar. Aprendi a entender os alertas dos dias, ganhei a confiança do tempo, aprendi a descodificar as vozes dos ventos que trazem mensagens de tempos sem tempo, certificados com a chancela genética da vida: memórias ancestrais.

Venci solidões e saudades lembrando carinhosamente os ausentes, mesmo que eles não o saibam. Perdi familiares e amigos. Não os trago nos braços mas moram eternamente no meu coração. Bebi lágrimas, sofri, mas renasci nos luares de confissões. Nunca permiti que a angústia, o desânimo, a desilusão me agarrassem, manietassem, numa asfixia sem retorno. Já não há fúrias que me amedrontem. Nem tempestades medonhas, nem desertos escaldantes. Não há tristezas profundas nem silêncios gritantes. Não quero! Continuo atenta à esperança. Sou a heroína da minha própria história! Renasço a cada vitória sempre que a claridade de um novo amanhã clareia as trevas da noite que terminou. (Maria Elvira Bento)

Sorria! Sorrir abre caminhos, desarma os mal-humorados, contamina. Mas sorria com a Alma, não apenas com os lábios

(Léa Waider)

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2 responses

  1. vitorchuva

    Olá, Maria Elvira!

    Belíssimo texto, olhando a vida em retrospectiva, numa época em que se fala de renascimento.

    Feliz Páscoa, com tudo de bom.
    Um abraço
    Vitor

    Março 28, 2013 às 3:43 pm

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