A NOITE QUE NÂO DOMINO, ENCANTA-ME

CAVALLI_620

 Quero cavalgar pela noite adentro abraçando os meus sonhos com a ternura de quem se delicia com esse mundo nocturno, vindo não sei donde (não sei para onde se vai quando adormecidas pairamos –ou não?- numa zona neutra da existência humana) por onde percorro corredores imensos, cintilantes, coloridos; por onde desço escadarias e canto, danço vibrantemente, nos mais empolgantes espectáculos onde, sabe-se lá porquê e como, sou a vedeta principal. Luto, morro e renasço nas guerras mais mortíferas, vou a locais que a memória abraçou ou olho paisagens desconhecidas. Encontro pessoas com as quais mantenho diálogos com o mesmo raciocínio se estivesse acordada. Escrevo livros em línguas que não domino, falo com estranhos como se fossem colegas de uma vida.

Já subi ao céu por uma escada de flores e vi o meu nome escrito por estrelas no horizonte. Já tive a ousadia de ver Jesus sentado ao lado do Pai e, muito mais, vi-O no regresso prometido (devia guardar isto para mim e não partilhar, mas seria tirar a veracidade ao sonho). Já fui apunhalada por um cavaleiro negro, de turbante e adaga, numa praia imensa de ondas brancas e quando me apunhalou senti uma dor tão dilacerante no peito que pensei ter morrido. Já voei sobre as cidades e senti o vento no rosto como se estivesse mesmo nos braços da brisa nocturna. Tive sonhos com continuação. Tive sonhos que anteciparam a realidade. Tive sonhos que não passaram disso mesmo (desde que fui operada, em 2011, perdi muito a capacidade de sonhar, não sei porquê. Lentamente estou a readquirir esse entusiasmo e diversificação).

A preto e branco, a cores, o jogo, a provocação, o mistério da noite renova-se sempre que o sublimar acender do céu ilumina a Terra dos mortais e eu, suspensa, deslizo solta num Universo que me prende, fala, indica, provoca, quando me presenteia com encontros impensáveis onde protagonizo filmes que desconheço, com enredos que não escrevi ao lado de parceiros que, por vezes, reconheço mas a maioria, não. Já tive aventuras impensáveis com pessoas inimagináveis. Já interroguei sonhos e obtive (raramente) respostas em diálogos comigo própria.

A noite que não domino prende-me. Pouso nela como se fosse um campo de algodão, um campo de sonhos, e sem temer as emboscadas das surpresas espero que a extenuação chegue enquanto esvoaço pelos espaços abertos que percorro num bater de asas desafiantes e desafiadoras. Não quero silêncio nem quietudes nos meus sonos, quero apreciar as vertigens de mundos desconhecidos. Não me assustam. Provocam-me. Quando deito a cabeça na almofada há décadas que faço esta pergunta: mas, afinal, para onde irei esta noite? (Maria Elvira Bento)

Descubra a profundidade da meditação, e encontrará a imediatitude do mundo. Os mestres de sabedoria ensinam que esse instante é a única realidade. Dele nascem os universos e os mundos. Os conflitos, o ódio, a violência, provêm de um desconhecimento de si, que gera dor e confusão. Não duvide do seu próprio esplendor interior. Cada ser vivo é uma estrela

(Dugpa Rinpoché)

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2 responses

  1. Maria João

    Agora só passei mas voltarei para ler , como já é tão tarde , foi só para assinalar a minha passagem , beijinhos voltarei breve..

    Abril 1, 2013 às 2:00 am

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