Archive for Fevereiro, 2014

OS GUARDIÕES DO TEMPO, DA VIDA, DA MAGIA

Castelo lindo de S

Em Sintra, os guardiões do Tempo fecharam as portas, os túneis, as entradas secretas que as folhas disfarçam aos olhos dos mais distraídos. A serra fervilha num ritmo desusado e, no seu interior, sucedem-se cânticos, preces, bailados desconhecidos aos olhos humanos. Nas estranhas da Terra, resplandecente e único, o Santo Graal protege, é protegido, pelos guardiões da Sabedoria, pelos guardiões do Tempo, da Vida, do Amor. Da magia. O dia de hoje voltou a vestir o manto denso de nevoeiro e desfilou serpenteando pelos recantos de uma Sintra agreste, fria e húmida que recebeu no regaço um Inverno implacável que traz do Universo a missão acinzentada de congelar, ondular, em cada passo que se dê quando se entra no portal invisível e se atravessa o que não se vê. As nuvens desmaiaram, juntas, caíram na Terra e formaram camadas tão coesas, tão densas, que ultrapassá-las é, podia ser, um feito que pode oscilar entre o romantismo, a aventura, a procura, o deslumbramento, o receio. Não apetece abraçar o nevoeiro, mas apetece entrar nele de mãos caídas, levando connosco a dúvida que aumenta a adrenalina. Por que nevoeiro é fumo, local de deuses, mistério, imaginação, convite. É véu diáfano que roça no rosto, mas não agarra. Promete, subtilmente. Apenas isso. O nevoeiro é o respirar da magia que polvilha Sintra. (Maria Elvira Bento)   Foto: Gustavo Figeiredo

 

 

Se és incapaz de sonhar, nasceste velho. Se teu sonho te impede de agir conforme a realidade, nasceste inútil. Se porém, sabes transformar sonhos em realidade e tocar a realidade com a luz do teu sonho, então serás grande no teu mundo e o mundo será grande em ti
(Aristóteles)

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VASCO, O POETA DESENHADOR

Vasco de Lima Couto

Conheço bem a biografia de Vasco de Lima Couto, poeta, actor, encenador, declamador, radialista (nascido no Porto) mas não é bem isso que me apetece lembrar deste notável poeta que vá lá saber-se porquê, entender o motivo, é tão esquecido. A todos os níveis. Imperdoável. Envergonho-me quando verifico como realmente sabemos amar tão mal os nossos notáveis que (como herança) nos deixaram magia de emoções que pelo valor ganharam asas e tiveram a capacidade de voar pelos espaços das estrelas. Não, verdadeiramente o que me apetece recordar (sem memórias esbatidas) é o Vasco, o meu amigo Vasco, visita assídua de minha casa (em Luanda), amigo da minha família, onde ele era ele: um senhor, um poeta, um artista livre, um sonhador, um conversador fascinante, um apreciador exigente, diga-se, de refeições caprichadas. Gostava dos petiscos da cozinha angolana. Gostava da imensidão de Angola e admirava-lhe a beleza com a tranquilidade dos seus olhos cor de mar em silêncios que antecediam inspiração. O Vasco era um poeta enorme. Era um homem de uma bondade tocante. Era um homem lindo. Era inquieto, por vezes, e, rabiscava, desenhava em todos os pedaços de papel que apanhava e escrevia, escrevia com a grandeza inspiradora que acorda com o Sol. Como sinto saudades do seu humor, da sua comunicabilidade, da sua capacidade de rir, da sua tocante simplicidade. Que saudades sinto dos serões de música, poesia e diálogo frente à baía de Luanda. Na memória do tempo, senti saudades do Vasco.(Maria Elvira Bento)

 …Hoje, sei que sem asas consigo voar mais alto do que jamais imaginei…
(Agnalda Carneiro)


SOU O PENSAMENTO EM MOVIMENTO

 mulher a ler livro

Eu sou a que voa nos oceanos do tempo, sem partidas nem chegadas, sem fronteiras ou espaços limitados pela sofreguidão de saberes. Sou a que não se perde nem se encontra, não procura miragens nem memórias. Sou a que liberta voa pelos espaços das noites adormecidas em surdinas melodias que transportam para lá do Infinito. Sem limites, sem destino. Sem máscaras, sem emoções tangíveis de provocarem arrepio ou indiferença, envolvida ou envolvente. Eu sou a razão dos meus voos. Eu sou a especial razão desta liberdade que não se procura nem se prende, não se vê nem se abraça porque eu sou a voz da ânsia dessa liberdade gloriosa que me dá corpo e me dá Alma. Eu sou o pensamento em movimento. Eu sou o dedilhar das notas espalhadas pelas estradas que me falam de ti. (Maria Elvira Bento)

A única coisa que destrói os sonhos é resignar-se às concessões

(Richard Bach)


QUANDO OS VENTOS SE CRUZAM

 folha no vento

As noites macias sabem a silêncios mimados e têm a luz plácida das estrelas que crepitam no rendilhado do vitral fosco do firmamento, realidade diferente da que estamos a sentir agora. Estamos a viver desusados tempos de vendavais dispersos, de ventos doloridos, sem brandura, que agitam com severidade invernal. E a invulgaridade dos remoinhos dos ares cruzados, em fúrias, amedronta. No “ninho” do sofá confortável, no silêncio e na quietude, muitas vezes cúmplice de ilusões e de fugas, os poetas -ou nós-, simples mortais, falamos mais alto nos livros que lemos e relemos em surdina, nas tais noites de magia quando a chuva cai mansa e desliza pelas vidraças das janelas fechadas. Mas quando os ventos se cruzam em uivos e ecoam pelas veredas das serras ou caem nos mares crispados com sons de medos e destruições, aí, sentimos a pequenez da nossa imensidão. (Maia Elvira Bento) Foto : Matthias Schrader

 

 

As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido

(Fernando Pessoa)


A REALIDADE TEM SEMPRE PODER!

 Lágrimas

 Deparei-me com esta foto onde alguém, recolhido em silêncio, creio, chora os companheiros ou familiares já perdidos. Olhei-a e senti um aperto no coração, não é foto que goste de se ver apesar da sua qualidade e emoção arrebatadas num disparo de um excelente profissional. Há torturas de Alma às quais nunca nos habituamos e os Oceanos de lágrimas que o Mundo anda a chorar não passam de consolo, panaceia, anestesia, que não modificam a dureza da realidade. A realidade tem sempre poder! O poder de ultrapassar a ficção. Aqui, na imagem, o poder de dizer, sem palavras, que aquelas botas tiveram donos e que esses donos, provavelmente, caíram em cenários de confrontos onde a violência venceu. Os resultados não disfarçam: o Mundo anda a perder-se em violência contínua, mortífera, e a emoção que tolhe países e povos envolve famílias, esperanças e futuros. O pânico grassa tão ruidosamente que ensurdece, e os homens a quem cabe governar o Mundo perdem-se, dispersam-se, ensurdecem. Não escutam clamores, não sentem a dor alheia. Esquecem no fundo da algibeira a traição que, em muitos casos, é a pura e declarada omissão aos valores da dignidade humana. Lágrimas soltas continuarão a espalhar-se ao vento misteriosamente nosso e de ninguém. (Maria Elvira Bento)

 

 

A Nação é composta pelos mortos que a fundaram e pelos vivos que a mantêm

(Joseph Ernest Renan)