Archive for Julho, 2014

VIAGENS INESQUECÍVEIS

combóio na ponte

A fascinação não se descreve, sente-se. Estar fascinada é estar enlevada, a pairar nuns degraus acima de um qualquer portal de encanto que nos transporta no esfumar de um tempo arrebatador. Fascinação, é arrebatamento! É o girar ao ritmo de uma emoção numa hora de todas as emoções, é uma multiplicidade de sentires que nos torna loucas e felizes por derramarmos tanta comoção e abraçarmos mundos que poucos entendem, com brilhos que pouquíssimos vêem.

A fascinação é nossa. Pode ser imensa, tocar as nuvens, ou ser uma simplicidade tocante e caber no aperto dos nossos braços. Fascinação, é a espuma dos nossos impérios ocultos, do amor da nossa Alma, do tamanho dos nossos sonhos, da grandeza do nosso caminho frente à vastidão do Universo que nos ilumina, encandeia, que energiza as nossas asas, e fortalece as nossas raízes. Fascinação é puro encantamento.

Há anos, há décadas, que estou fascinada pelos combóios. Descobri-o aos três anos e nunca mais o deixei sair dos trilhos da minha vida. Conheci combóios de todas as espécies e, desde sempre, o fumo, o silvo, as carruagens, os bancos, as janelas (ai, as janelas, Senhor) sempre me dão a ilusão de que a velocidade do combóio acompanha a minha velocidade do meu pensamento. Um dia, teria seis, sete, anos ao olhar um espaço verde vi surgir, num ápice, como herói desconhecido, um combóio metálico. Fiquei sem fala, sem respirar, louca de admiração. Passei a chamar-lhe o “flecha prateado” e quando o via o meu mundo parava.

Andei de combóio em vários Continentes. Cada viagem, um encanto, uma história, um desassossego, uma memória. Nunca andei de TGV mas via-o todas as semanas em Vevey (Suiça). Numa rápida retrospectiva pergunto-me a mim própria qual foi a viagem mais emocionante? AH! Foram todas. Mas a que fiz do Luso (Angola) a Teixeira de Sousa tem laivos de “Africa Minha”. A de Lisboa/Madrid que no regresso escapamos por milímetros, diria, de uma enorme rocha que ia matando todos naquelas três carruagens que descarrilaram, tem o seu espaço intocável. As viagens na Suiça em combóios vindos da Guerra davam aso a divagações. O percurso sobre o Douro, na ponte D.Maria, sempre me deixou lívida mas desafiava frontalmente a minha coragem. Metia medo mas era fabuloso aquele percurso, tal como a viagem pelo Tua, arrebatadora. Medonha e encantatória.

As viagens no Canadá, nos EUA, na Inglaterra. Com neve, tempestades, com frio, com Sol e calor escaldante mas sempre com paisagens apetecidas. Tudo na fascinação de uma viagem pela via férrea. Sou do tempo em que ele apitava e se passássemos por um túnel e não fechássemos as janelas (Rossio, por exemplo), ficávamos pintados pelo carvão. Recordações inesquecíveis. Fascinantes. Mas não tanto, ainda, como aquelas que gostaria de fazer nos míticos Expresso do Oriente e Transiberiano (dizem que a viagem mais fascinante do mundo). Aí, não sei se teria Alma para tanta fascinação. (Maria Elvira Bento)

Se podemos sonhar, também podemos tornar os nossos sonhos realidade
(Walt Disney)