Seja bem-vindo quem vier por bem!

As paixões são como ventanias que enfunam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveria viagens nem aventuras nem novas descobertas (Voltaire).

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CAMELOT – O REINO DE ARTUR

O deslumbramento foi sentido na infância e, ainda hoje, já para lá das sete décadas, o encanto continua intocável.  O que povoou e povoa longas meditações, o que imagino e saboreio com dúvidas e prazer é o tema do Reino de Camelot . Hoje, como ontem! As mesmas dúvidas e o mesmo deleite. Penso que o rei Artur, sábio e justo, coroado aos 15 anos (mesmo sendo lenda), ao unificar a Inglaterra, ao criar a Távola Redonda, onde unia em sessões especiais 150 nobres Cavaleiros (podendo sentar 1.600), em espaço de verdadeira irmandade, igualdade, regendo-se por um espartano código de conduta, foi um verdadeiro democrata do seu tempo.

A Excalibur, espada mística, de poderes mágicos, que se diz ter sido enterrada numa pedra pelo pai de Artur antes de morrer, é um elemento fascinante, embora particularmente goste bem mais da ideia de Excalibur ter sido atirada para o lago de Avalon e depois ter sido devolvida a Artur pela Dama do Lago. Quando ela ergue o braço e rompe das profundezas com a espada na mão é uma visualização poderosa. Avalon é a ilha sagrada cheia de mistérios, magias, fadas, feiticeiras, onde Artur, ferido, foi curado pela belíssima e maléfica Morgana, sua meia-irmã. Pensa-se que na batalha final contra Lancelot -o seu melhor amigo, forte e corajoso mas que não resistiu à beleza da sua rainha-, Artur foi ferido violentamente e levado para Avalon onde acabou por falecer.

Diz-se que nas escarpas da Cornualha foi edificado o castelo do rei. Ficava a 180 metros de altura e, aí, surgiu o paradisíaco reino de Camelot, belíssimo, calmo, onde Artur, Guinevere viveram juntos 12 anos felizes. Lancelot (o cavaleiro que conquistou o coração de Guinevere), Merlin (o mago com muitos poderes e muitos segredos ) entre outros personagens, deambularam por terras encantadas neste universo imaginário e eterno. E, nesse mundo encantado dizem, ainda hoje, ecoar pelas costas bravias da Cornualha, uma voz forte que diz: Consolai-vos. Ficai seguros que voltarei quando a terra da Bretanha precisar de mim. Simplesmente encantador. Apaixonante. Sempre. O Reino Encantado de Camelot continua a viver comigo e, apesar dos anos, vou sempre descobrindo aqui e ali, pozinhos novos que conseguem avivar o brilho da imaginação.

E, curioso, quando apanho na Portela de Sintra a camioneta para Mafra, antes de chegar a Ondrinhas, do lado esquerdo, fica um monte cheio de meníares e árvores diferentes, com raios de luz projectando-se nas rochas redondas, brilhantes, onde se sentam damas de cabelos longos, entrelaçados com flores, por onde cavaleiros de armaduras de couro e prata, cavalgam a trote. E, há dias, quando os fixo melhor, que os vejo saudarem-me…

A imaginação é mais importante que o conhecimento

(Albert Einstein) 

ALMOUROL, O CASTELO ENCANTADO

A primeira vez que o vi, fiquei de olhos muito abertos quase sem respirar, olhando-o pela janela meio embaciada do comboio que tinha partido do Rossio ao Sul do Tejo rumo a Lisboa, depois de ter parado na ponte Corta Cabeças (muitas ficaram lá). Tinha eu nove anos e depressa esqueci o pavor que essa paragem me fazia (o revisor gritava fortemente para que ninguém se debruçasse, a ponte estava ao nível do comboio e, este, não poupava aproximações…). De olhar fixo não deixava de me deslumbrar com aquela maravilha que apareceu, sem avisar. Ali, flutuando no Tejo, estava um castelo igual ao das minhas histórias infantis, povoadas de príncipes e princesas, cavaleiros e rainhas: o Castelo de Almourol! Enquanto deu para o ver não deixei de o fazer e só quando o comboio descreveu uma curva apertada a minha descoberta desapareceu. Eu é que nunca mais me libertei daquele encantamento. Até hoje.

Por viver em Abrantes (a cidade florida) e ir frequentemente a Lisboa com os meus tios (Francisco e Rita, que me criaram desde os três anos), o castelo passou a fazer parte dos meus renováveis deslumbramentos. Quanto mais o via mais me deliciava olhá-lo no meio do Tejo, numa ilha pequenina (310 metros por 75m de largura) desafiando-me a imaginação. Os anos passaram rapidamente e já adulta, na concretização de uma reportagem para a revista Mais, cujo director era o Carlos Cruz, desloquei-me com o saudoso Carlos Gil, um excepcional repórter fotográfico, ao castelo da minha meninice. Já o tinha visto o castelo de todas as maneiras: resplandecente ao Sol, fustigado por uma tempestade terrível, envolto em densa neblina, brilhando à chuva, mas nunca tinha tido o privilégio de chegar perto dele, tocar-lhe, subir as escadas e, lá de cima, olhar para o serpenteado da linha do comboio, para o verdejante das margens, para o reflexo do Tejo que rodeava o meu palácio.

Foi de barco que atravessamos a pouca distância (naquelas águas ao longo dos anos, enquanto vivia em Abrantes, soube de muitos jovens militares, pertencentes à base de Tancos e destacamento de engenharia, que perderam a vida quando ali nadavam) que separava as margens. Quando o barco atracou e pisei as rochas da ilha iniciei um processo de fascinação que aumentava de degrau em degrau. Como ia de saltos altos tirei-os e fiz o percurso do meu contentamento com meias de seda. Quando regressei ao barco vi que estava descalça e ferida; os pés das meias, tinham desaparecido! Volatilizaram-se! Tinha acabado de viver por dentro um sonho de 18 metros de altura vindo das auroras romanas e ocupado (no século III) por Alanos,Visigodos e Muçulmanos, estes a partir do século VIII. Almourol foi conquistado em 1129 por D. Afonso Henriques. O soberano entregou-o aos cavaleiros da Ordem dos Templários, então encarregados do povoamento do território entre o rio Mondego e o Tejo, e da defesa da então capital de Portugal, Coimbra. No século XX, foi classificado como Monumento Nacional.

A história deste castelo medieval é vasta e riquíssima em pormenor e as suas muitas lendas dão-lhe uma envolvência misteriosa e romântica. Por exemplo, a do terrível D. Ramiro e da sua filha Beatriz que se apaixonou pelo jovem mouro, cuja mãe e irmã foram assassinadas pelo pai, o violento fidalgo guerreiro. O amor dos jovens não foi por ele aceite e estes decidiram desaparecer. Ainda hoje se diz que, nas noites de São João, se olharmos para o alto da Torre de Menagem, aparece a imagem do eternamente jovem casal apaixonado, abraçado. E, a seus pés: D. Ramiro. Também há quem garanta que nas noites de Lua Cheia se vê um corpo esguio, envolto em tecido branco e luminoso esvoaçando em torno do castelo. Em fundo, vozes cristalinas e, por vezes, uns sons que parecem harpas enchem de magia o espaço. Porém, diz-se que, por vezes, esses cantos são substituídos por sons de um choro sofrido. E, os mais antigos da região guardam na memória as noites em que, extasiados, viam cair do céu pérolas e flores que em contacto com o Tejo faziam largos círculos na água. Sonho? Realidade? Ilusão? Não há (penso) que rotular aquilo que nos transcende. Almourol estará sempre ligado aos Templários e tantas são as histórias de tesouros, bibliotecas, manuscritos preciosos, Cálices Sagrados, segredos, que palpitam, fascinam e desafiam. Visitar o castelo é percorrer o caminho da procura e da intemporalidade.

Almourol, continua ali, tal como o vi pela primeira vez quando tinha nove anos. Elegante, altivo, distante e próximo, abrindo-nos as brumas dos tempos passados e deixando-nos percorrer os grandes túneis escapatórios que têm as dimensões das nossas imaginações. Pelas escadarias, podemos sentir os passos delicados de damas gentis ou o pisar forte de guerreiros. É tudo uma questão de chamamento, concentração, poder e energia. Ah! E também de paixão. Passei anos a investir nela e, ainda hoje, quando olho a minha ilha de paz, Almourol, sei que no meu coração palpita uma rosa. É um milagre e é um mistério, ligado à minha fonte universal…

A beleza de qualquer classe em sua manifestação suprema excita inevitavelmente a alma sensitiva até fazer-lhe derramar lágrimas

[ Edgar Allan Poe ]

AS FARÓFIAS FLUTUANTES

Gosto de olhar as nuvens. Fascinam-me. Vê-las, é entrar num espaço de deleite onde se é desafiado ao exercício da livre interpretação,  dando evasão  à imaginação, perante a sucessão de imagens onduladas, estilizadas, que fazem da tela azul uma paleta de mensagens, continuamente em movimento e modificação.

 As nuvens são mares por navegar, mundos por decifrar, mensagens por descodificar em imagens esbatidas, raiadas de luz e de surpresa: o rosto que nos fixa; a bailarina elegante que corre pelo espaço deixando um rasto de farrapos, de tule e de magia; o barco imponente, esfumado, que vagueia por cima da nossa cabeça, ao sabor das brisas dos ventos calmos; sereias serenas e deslizantes; mãos em preces; pianistas em pianos translúcidos; lutadores contorcidos em movimentos de ataque nos combates dos quais somos espectadores privilegiados e fascinados. Cada nuvem é um desafio, um ensinamento, uma provocação aos  sentidos. Um acordar de emoções perante os sucessivos quadros de água ou de humidade que adquirem vida nas imagens que continuamente criam.  Passam com a ligeireza de momentos e ficam com a intensidade da nossa imaginação.

Eu sou o sussurro do vento, o calor de seu Sol, a incrível individulidade e a extraordinária perfeicão de todos os flocos de nuvens.

(Neale Donald Walsch)

O MUNDO ANDA CRISPADO

Não é novidade, sente-se que os habitantes desta “bola azul” andam crispados. Cada vez mais. Desesperadamente, mais. Apetecia-me fazer o exercício (fácil) de enumerar os conflitos, as desgraças, as aflições, as ameaças e os desencantos de 2011 e desenvolver algumas projecções . para 2012.

Vou optar por, de uma forma ligeira, focar algumas realidades internas que gostaria de ver concretizadas:Rreforma na Justiça, Plano de Desenvolvimento a 20 anos, independente dos ciclos políticos. Vencermos, de uma vez por todas, a arrogância,  o preconceito, a pequenez, a burocracia, a mentira, a apatia, a desculpa esfarrapada e o terrível defeito de se atirar para o passado todas as consequências do presente e do futuro. Há que crescer. Os fatos Armani ajudam muito, mas não mais do que a imagem. 

Seria bom que o Mourinho regressasse e nos fizesse viver, interna e externamente (importantíssimo), verdadeiras alegrias e, assim, projectarmos além fronteiras valor, disciplina e classe. Basta de golpes de sorte. Não basta chamar ao Brasil país irmão, é preciso levar a Comunidade Lusófona para a frente dos negócios -triângulo Portugal/Brasil/Angola- (as crises geram oportunidades) e da influência mundial e, ao mesmo tempo, assumir o papel de Nação da Economia dos Mares e das Energias Sustentáveis. Já demos bons passos (Viana do Castelo, Amareleja).

Seria magnífico saber que a nossa Educação Básica ganhou um prémio qualquer de melhor do mundo. Que temos Universidades nas 100 melhores do Planeta. Que os hospitais privados ganham em função das filas de espera cada vez menores e dos certificados de qualidade internacionais. Que não asfixiem os hospitais distritais. Não cedam aos projectos, por vezes camuflados, de transformar a Saúde num grande negócio. Que não respeitem os profissionais da Saúde, tornando-lhes a vida num inferno.

Que não respeitem os que nada têm nem sequer a possibilidade de procurar ajuda junto do médico de Família (quase dois milhões de portugueses não os têm), de se dirigirem aos Centros de Saúde (que vão encerrando) e, nos momentos de aflição não conseguirem já receber o apoio dos Bombeiros que, manietados, não podem corresponder às necessidades. Que os Bombeiros ganhem por hectare de mata verde conservada e não enfrentam dificuldades financeiras tamanhas que os impede de cumprir os objectivos que querem prestar à população e que esta espera deles.

Que os doentes não morram à espera de um 112 que não chega ou não atende. Que Lisboa fique menos poluída por que entram menos carros na capital já que os comboios, devidamente vigiados, combatam a violência (a aventura), o medo dos passageiros em viajar neles.

Que as Forças Armadas sejam prestigiadas e os seus feitos não sejam esquecidos e os ex combatentes não enfrentem diariamente o desespero. Que a nossa Polícia sejam apoiada (vejam como se faz no Canadá, por exemplo), que não tenha de comprar a farda e não ter dinheiro para sustentar dignamente a família.

Que a beleza, a dignidade e a herança do nosso Património (de Norte a Sul) não caia, deteriorado, por falta de obras de conservação. Que os nossos cientistas nos surpreendam cada vez mais ( e têm surpreendido) com as suas descobertas e levem sob a bandeira o prestígio, a sua capacidade mundo fora.

Que muito mais coisas que, entretanto, nos poderemos permitir pensar quando tivermos passado o pior do aperto económico e social de há muito (Portugal 700, no Mundo 100 anos) e, aí, teremos reencontrado a nossa vocação de Nação Persistente que há 900 anos -entre feitos gloriosos e desastres tremendos- chegou a todo o Mundo e em cada canto dele há um português a ajudar a perpetuar a lembrança deste País que abre os braços à Europa e ao Atlântico. Quase que falta tudo isto e, com quase nada, quase que já chegámos ao ponto de partida para entrar nesta era de sonho.

 

Tenho em mim todos os sonhos do mundo
(Fernando Pessoa)

TEIXEIRA DE SOUSA – O COMBOIO DO ADEUS

…Os dias passavam com uma lentidão doentia e, tentando contrariar essa apatia Catarina decidiu concretizar um plano que tanto tinha de louco como de desesperado.-Não posso estar à espera que as soluções me venham ter às mãos. Tenho de tomar decisões e procurar pistas.

Em trabalhos anteriores tinha conhecido o Dr. Germano que residia em Teixeira de Sousa (hoje Luau), Angola. Era um profissional muito querido em toda a zona por tratar os doentes fossem de que Partido fossem e, mesmo quando (camufladamente) era chamado para lá da fronteira (Congo), nunca negava os seus préstimos. Ajudou os feridos, os doentes, os velhos, as crianças, as mulheres grávidas com problemas nos partos. Tinha uma acção de movimentação privilegiada porque para este médico português não havia cores, raças ou fronteiras. Ele estava (sempre) onde era chamado.

Pensando nele, a jornalista concretizou um plano. Apanhou o comboio no Luso (hoje Luena) até Teixeira de Sousa. Foi uma viagem serena embora emotiva já que os passageiros pensavam que no minuto a seguir surgiriam as temidas emboscadas, mas acabaram por ser horas agradáveis passando por paisagens deslumbrantes. Os restaurantes dos comboios são sempre especiais, envolve-os um subtil romantismo e um ténue véu de mistério. Este não era diferente. Catarina entrou, escolheu uma mesa junto à janela e olhou, deliciada, as nuances de cores à medida que o comboio avançava pela mata, os verdes caminhos do perigo.

Catarina precisava de se libertar da angústia dos últimos tempos, sentia-se no limiar das forças físicas e quando a viagem terminou pareceu-lhe ter atravessado o mundo. Olhou a estação de Teixeira de Sousa e respirou profundamente. Em seguida, procurou o hotel e nele descansou o resto do dia. Na manhã seguinte, encontrar-se-ia com o Dr. Germano, no café da praça. Ambos foram pontuais. O contacto tinha sido feito a partir de Luanda e, apesar de superficialmente, Catarina tinha tocado no assunto que a levou a procurá-lo. Pessoalmente havia maior disponibilidade para focar em pormenor tudo o que sabia e tudo o que desejava descobrir. Infelizmente o médico, que se mostrou um atento ouvinte, no final não teve nada de conclusivo para lhe dizer.

-Sei dessa operação, foi das grandes e fez muitas baixas. Capturados, não ouvi dizer que tivessem sido feitos, se isso tivesse acontecido duvido que não soubesse. Sabe, eu funciono de uma forma que lhe poderá parecer estranha, mas estou em todos os campos de batalha! Sou médico, o único nestas paragens, não posso deixar morrer ou de assistir quem me pede auxílio, independentemente de todas as regras estipuladas. Para ser franco e não querendo ser pessimista, penso que o seu amigo foi vítima mortal dessa batalha, mas também sou de opinião que se deve tentar tudo até estarem esgotadas as buscas. Bom, vamos à fronteira, tenho lá um contacto que nos pode ser útil. Está disposta a entrar em terrenos perigosos?

-Dr.Germano, não estar neles é que me deixaria admirada. Vamos, por favor. Apesar de um leve sorriso, Catarina não conseguiu disfarçar nem a amargura nem a expectativa.

A viagem até à fronteira foi feita na ambulância com o Dr.Germano, um condutor e um enfermeiro, ambos negros. Catarina não desconhecia que entrar naqueles terrenos era desafiar a sorte. As minas, pródigas na zona, intimidavam-na. Sempre a intimidaram. Ainda se recordava quando no vale do arame farpado, no Úcua, elas, apesar de simuladas, provocavam arrepio nos militares que rastejaram em zonas demarcadas, no percurso de instrução, nas temíveis cinco semanas de avaliação.

-Por favor, vá atrás. Disse o médico.Vamos ser vistos e eles não estão habituados a encontrar aqui uma mulher. O nosso escudo é a ambulância mas, principalmente, sou eu. Eles precisam de mim e não escondo que, neste momento jogo com isso. O Augusto é o meu enfermeiro, já está habituado a estas movimentações. Vamos, suceda o que suceder, não se assuste porque vai acontecer alguma coisa, essa é a forma de me dizerem passaste por seres tu, mas nós vimos-te. Está assustada?

-Francamente não sei o que lhe dizer. Assustada? Dr, está a ser gentil, estou em pânico! A viagem para lá decorreu sem incidentes de maior. Pelo vidro que separava o banco da parte de trás o Dr. Germano, a determinada altura, disse:

-Não olhe, mas eles estão emboscados no lado direito, se dispararem não se assuste, é para intimidar.

Catarina começou a sentir-se mal, mas não disse nada. Quando chegaram à parte que marcava a fronteira (um risco de separação ao meio da ponte), o médico olhou-a e disse:

Está pálida, com um ar abatido. É tudo medo? Catarina sorriu e abanou os ombros

-Já passa .

A paisagem era invulgarmente bonita. O rio de águas transparentes, saltitava pelos seixos grandes e redondos, originavam pequenas cascatas faíscantes e musicais. Esse rio unia as duas fronteiras (Angola/Congo). Lavadeiras (no lado da Congo), sorridentes, indiferentes às realidades políticas, lavavam a roupa e acenavam ingénuas (ou provocadoras) na sua seminudez, que lhes deixavam o tronco nú. O Dr. Germano encaminhou-se até ao meio da ponte onde já tinham chegado dois guardas da fronteira e um terceiro aproximava-se. Catarina seguiu o médico e ao aproximar-se dele este parou o diálogo que mantinha com os guardas, obviamente armados. Virando-se para eles e conduzindo Catarina para o seu lado, disse-lhes:

-Não a apresento oficialmente mas, particularmente, esta é a jornalista de quem lhes falei.Os interlocutores olharam Catarina com alguma simpatia, (pelo menos sem agressividade visível) e disseram num tom que pareceu cordial:

-Lamento o que aconteceu ao seu amigo. É a guerra! Disse um deles

Falar com o inimigo não era nada normal e provocava uma sensação estranha.Talvez medo misturado com curiosidade. Catarina esboçou um sorriso e baixou ligeiramente a cabeça:

-Obrigada.

O Dr. Germano manteve um diálogo mais prolongado  a sós com os militares e quando voltou o rosto expressava um certo desalento.

-Lamentou não ser portador de boas notícias, mas disseram-me que o Quartel General já teve conhecimento dos corpos de dois oficiais encontrados, não muito afastados do local da emboscada.

 - Dois? Mas eram três!

- Eu sei. Espero que o terceiro seja o seu amigo mas francamente, não sei se será bom estar vivo. Pode ter sido capturado. Como lhe disse não soube do aprisionamento de nenhum militar português. Neste caso tem duas soluções: ou entra em desespero ou enfrenta a esperança e luta por essa réstia. Qual escolhe?

- A última, claro

Não acabou a frase porque a ambulância travou brusca e inesperadamente.

- O que foi? -Perguntou Catarina.

-Temos a estrada bloqueada. Não saia! Disse o médico.

-Desculpe, mas saio. Aqui dentro sou um alvo fácil, perto de si estou mais protegida. Vou sair, suceda o que suceder. Aqui fechada, nem pensar. Abra-me a porta, por favor.

-Não sei se deva

-Abra Dr., à minha responsabilidade; se sabem tudo, também sabem que vou aqui. Apesar do médico discordar do raciocínio acabou por abrir a porta e Catarina saltou rápida. Na estrada, um tronco enorme bloqueava o acesso.

-Mas passámos há pouco e tudo estava livre como é que isto aparece aqui?- Perguntou Catarina

-É o cartão de visita, é a forma de me dizerem: nós vimos-te e passas porque queremos. Augusto e o Vítor, empurraram o tronco com a alavanca que estava debaixo do banco.

-Cuidado com as mãos! Catarina não sei qual é a sua ideia e também não sei qual é a deles, mas, pelo que conheço da psicologia é melhor vir para o meu lado. Você aqui não é valiosa, eu valho mais, acredite em mim.

Catarina concordou e limitou-se a pôr as mãos no tronco porque força, claro, não tinha, mas queria ajudar. Passaram mais de quinze minutos em sucessivas tentativas de libertarem o trilho poeirento do obstáculo no percurso. Ao entrarem para a ambulância, Catarina mais serena, diz:

-Afinal eles só nos quiseram assustar.

Inesperadamente da mata, veio um aviso bem sonoro: -Pois sim, passa cá sozinha que vais ver o que te acontece!

Catarina ficou sem pinga de sangue, incapaz de balbuciar qualquer palavra. Entrou na ambulância, sentou-se e escutou o fechar da porta. A viagem decorreu sem mais incidentes.

Chegados ao centro de Teixeira de Sousa ficou combinado encontrarem-se no hotel pelas oito horas. Jantariam e trocariam impressões sobre as últimas novidades que o médico tinha conseguido saber na fronteira. No seu quarto, Catarina pediu uma chamada para Luanda. Ligou para casa de Daniel, o médico da unidade, colega e grande amigo do capitão Fernandes.

A jornalista teve necessidade de esperar uns dias pelo regresso à capital. À partida, Catarina agradeceu todo o apoio dado pelo Dr. Germano, com o qual teve longos e elucidativos diálogos relacionados com a riqueza, o futuro (estava-se em 1969), a divisão angolana, as influências externas e a unificação que um dia seria, na sua visão, uma realidade.

-Terá muito que ver com a futura coesão europeia e com o papel que Portugal conseguir ter frente aos que quererão explorar a riqueza de Angola e não o seu coração. E muito menos o seu Povo. Portugal terá que ser sábio perante os tempos terríveis que surgirão. Apesar da conquista da Independência, os angolanos percorrerão anos e anos de travessia no deserto. Aguardam-nos muitos sofrimentos

- Confesso, diz Catarina, que não me é fácil acompanhar o seu raciocínio. Não entendo quando me fala na coesão europeia, isso é um sonho que ainda foi realizado! Portugal está de costas viradas para Espanha; a Suíça é uma ilha no meio de países vivendo uma eterna neutralidade; a Bélgica tem divisões; Espanha, idem. A Alemanha dividida, mata quem tenta saltar o muro à procura da liberdade!

-É isso! Quando esse muro cair começará a ouvir-se o Sopro da Liberdade e, simultaneamente, nascerão as convulsões para uma Europa que, para cumprir a sua missão (o Continente antigo, berço da Civilização e da Cultura, correrá riscos de alarmante envelhecimento) terá de mexer nas fronteiras, compreender a ânsia dos povos, e lançar âncoras nos portos agitados que serão o desequilíbrio emocional dos desenraizados, perdidos; dos que sem emprego e sem futuro são capazes de mover massas humanas unidas no desejo de viver. Há povos que não desistirão nunca das suas ânsias.

-Estou absolutamente abismada Dr. Germano, não lhe conhecia essa capacidade de futurologia e o rigor da análise é inquietante. Em que se baseia para pensar assim? Perguntou Catarina, verdadeiramente interessada, mas a resposta do deixou-a intrigada.

-Basta abrir o Mapa do Mundo! Abra-o, assinale onde há convulsões e veja se elas não estão ligadas com as fronteiras. Diz-lhe o médico com um ar tranquilo deixando no ar um enigma de difícil resolução. Mas Catarina não quer desistir.

-Falou-me da coesão europeia, mas como será possível? Qual foi o Continente mais devastado pela Guerra? A Europa, claro!

 -Ah! Sim, foi horroroso, mortífero, foi a convulsão do crescimento, o renascer das cinzas. Nessa altura as pessoas consciencializaram-se da importância da sua força e conseguiram-se feitos épicos: a solidariedade colectiva reerguendo cidades dos escombros. A Paz começa sempre no coração de cada um. -Disse o médico com um olhar perdido no vazio segurando, maquinalmente, um copo de cerveja que não bebia… -Gente que mais não era do que farrapos humanos no pós-guerra e que souberam ir às reservas mais íntimas da força que ainda lhes restava e readquirir uma notável capacidade de lutar e trabalhar. Descalços, rotos e famintos, nunca perderam o orgulho nacional e, unidos na desgraça, reergueram, com dignidade, cidades monumentais. Este é o lado positivo da guerra. Faz acordar os acomodados, adormecidos, é o natural instinto de sobrevivência.

 -É apologista da guerra? -Perguntou Catarina visivelmente admirada.

 -Meu Deus, como eu odeio a guerra. Como eu a odeio! Toda a minha vida não vai chegar para esquecer o que aqui vivi. As guerras são verdadeiras barbaridades humanas. Falava-me na Segunda Guerra e concordo com a sua sensação. Foram números tão dramáticos que nos envergonham de pertencer à raça humana mas ela fomentou, nos sobreviventes, a ambição de vencer. Despertou-os para o trabalho, romperam as ideias e surgiu a dinâmica dos grandes anos, das fábricas em plena laboração, das descobertas sucessivas que fizeram rodar o Mundo.

 - E os milhares e milhares de mortos? Murmurou Catarina.

 - Falando friamente, não fique indignada comigo, diria que são os acidentes de percurso. Há sempre uns que são apanhados pela rede da pouca sorte, chame-lhe destino, chame-lhe má sorte, chame-lhe os sacrificados, o que quiser, mas houve (e haverá) os que nas grandes catástrofes morrem, e há sempre os outros, os que sobrevivem. Sem culpa, sem razão e sem lógica. Mas é assim! O Kennedy, morto há pouco tempo, era para a América o símbolo do sonho, mas acabou por ser morto pelos seus porque ousou defender os mais fracos e apontar situações de corrupção. A América ficará orfã anos sucessivos porque não será capaz de se emancipar da saudade de um homem que, apesar de algumas decisões erradas, fez renascer o orgulho nacional. O povo identificou-se com ele, quando Kennedy voltou a dar brilho a uma América cinzenta. É isso o que falta aos portugueses, esse será um ponto que lhes cobrará altos e terríveis dividendos.

  - Explique-se melhor, por favor. Pediu Catarina

 -Claro, refiro-me à nítida incapacidade do povo português, de uma forma geral, não estou a analisar casos individuais, de sentir esse orgulho nacional. O português é desunido. O português é muito acomodado, por vezes parece adormecido. Quando a união for uma realidade tudo se modificará e surgirão nos tempos certos os políticos certos e, juntos, povo e governantes, conquistarão o progresso. Nunca mais esquecerão de apostar e desenvolver a Educação, a Saúde, a Solidariedade, bases de construção sólida de qualquer país Falei muito para tudo se resumir em duas coisas: a Europa precisa de se tornar num continente forte, em todos os sectores. Os portugueses têm de reconquistar o orgulho nacional, parece que perdido na glória do século XVI. Uma Europa forte e unida terá condições de intervir, de ajudar, de defender…

- Defesa pressupõe guerra! Argumenta Catarina, ao que o médico prontamente respondeu:

 -Não, é uma forma de preparar a Paz! Daí a necessidade de umas Forças Armadas organizadas, preparadas e moralizadas. Um Continente sem defesa é como uma linha de pesca sem anzol, outros acabarão por colocar o isco para que o peixe venha morder. E, enquanto a Europa não for capaz de resolver os problemas dentro da sua própria casa, sem ajudas externas, muitos peixes irão picar no anzol!

 -Estou completamente fascinada e perplexa, Dr.Germano Vou pensar em tudo o que me disse, mas numa coisa estamos de acordo: que Angola se torne livre e seja inteligente para não deixar que outros venham a ser os seus colonizadores ocultos, impedindo-a de trilhar os caminhos do progresso e da harmonia. Adeus, Dr.Germano. Catarina acenou-lhe nos degraus da carruagem que a levaria de regresso ao Luso.

-Nunca saberei dizer-lhe como o admiro e como me fascina a sua acção notável que aqui desenvolve desinteressadamente, sem esperar nem louvores nem medalhas. O senhor é um verdadeiro herói. -Disse a jornalista, à janela do comboio que se afastava lentamente, prolongando o adeus que acabaria por ser o último.

Tempos depois a jornalista soube que o Dr.Germano fora morto numa emboscada, na zona da fronteira onde habitualmente prestava assistência médica. Todavia, muitos foram os nativos que acompanharam o caixão na sua última viagem de comboio naquela zona angolana, antes de regressar a Portugal.

A linha de Teixeira de Sousa teve um movimento desusado. Escondidos na vegetação homens, mulheres e crianças cobriram de cor a urna com flores selvagens que atiravam ao comboio do adeus, na tentativa de que algumas ficassem lá. Numerosos grupos ocultos na mata ao longo do percurso disseram-lhe, à sua maneira, adeus, disparando rajadas de G-3. O Dr.Germano teve um “acidente de percurso? Teve pouca sorte? Cumpriu o destino? Ou teria, apenas, terminado a sua missão?” Quando soube da notícia Catarina chorou e, simultaneamente, recordou o vigor da sua postura perante a vida: na lucidez e na generosidade. Sentiu-se profundamente triste.

Esteja onde estiver, Dr.Germano penso que estará bem. Trouxe uma missão para cumprir na vida e concretizou-a. Merece tranquilidade

(Maria Elvira Bento)

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