Archive for Março, 2013

SIM SENHOR, BOA FORMA. EXCELENTE FORMA

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A vida não é fácil, nem sempre é justa e, raramente, é pacífica: em sentimentos, em esperanças, em certezas, em metas, em ambições. Viver tem o seu custo e a factura frequentemente é alta. Demasiado alta, mas, é vida! Tem o borbulhar oxigenado da respiração que nos alimenta, que nos invade e nos glorifica. Por vezes a vida assemelha-se a uma longa pista de obstáculos que têm de ser ultrapassados (de preferência vencidos) com fato completo e sapatos de pelica, não há tempo para o conforto e a informalidade, mesmo que a transpiração seja excessiva, o coração assuma o ritmo de tambor e a respiração seja luxo de audazes.

Portanto, a vida é pródiga em tirar-nos o sono e em provocar voltas e reviravoltas na nossa existência. E, por vezes, a sufocação é tão intensa que para respirar bem há que fazer a travessia no deserto. Há que alargar o espaço que nos envolve e procurar lonjuras para pensar, para respirar, para readquirir a boa forma ameaçada. Pode ser nas areias abrasadoras ou nos oásis refrescantes. Pode ser onde quisermos, se quisermos querer.

Por lá andamos a encher-nos de luz, aquela que nos abre o espírito e amacia o coração, que nos devolve o sorriso e a confiança guardado no bolso direito de um casaco muitas vezes esquecido. Por lá enterramos nas areias frescas de um oásis verdejante as humilhações silenciosas ou públicas que engolimos como sapos em noites de Verão.

Enterramos enganos e desenganos, enterramos raivas e decepções, enterramos mentiras, mistificações, enjoos, heroicidades e desmotivações. E, enterramos, principalmente, traições, incompreensões, batalhas perdidas e visões renegadas. No deserto ou na cosmopolitidade de uma qualquer cidade turbilhante, reergemo-nos, lenta e sofridamente, dia após dia até, ao dia decisivo de voltar às pistas longas, de obstáculos caprichosos, armadilhados. Mas aí, nesse regresso, volta-se qual Adónis feito homem, não pela beleza mas pelo conjunto de visões lúcidas que é necessário partilhar. E quando o desejo rasga as improbalidades ressurge-se com a boa forma que causa admiração e perplexidade. Aí, acaba-se por marcar o primeiro golo num jogo que não se programou jogar. Sabe bem. (Maria Elvira Bento)

 

 

O rio atinge seus objetivos porque aprendeu a contornar obstáculos
(Lao-Tse)

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JÁ VENCI SOLIDÕES E SAUDADES

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Não há fúrias que me amedrontem. Já senti o lado furioso da vida e renasci renovada. Passei por furacões, tempestades de neve, de areia, sobrevivi à dureza de monções, de ventos invertidos, de chuvas calamitosas. Sei o que é o cheiro da guerra, do perigo à espreita, escondido, traiçoeiro, inabordável. Sei o que é olhar para o nada e não sentir a respiração que nos alimenta a vida. Sei o que é estar numa fila imensa com um copo e um prato na mão à espera que chegue a ração que nos cabe num dia de sorte. Sei o que é tomar banho no esguicho de um cano de rua que alguém furou para que os retornados se refrescassem. Sei o que é dormir em tábuas apenas com um cobertor dado por umas religiosas apiedadas com a situação. Já contei tostões e já deixei de comer o que me apetecia por o dinheiro não chegar. Já tratei por tu a desumanidade da vida, mas nunca deixei de me deslumbrar com o Universo.

Nunca virei as costas a uma luta. Nunca deixei de acreditar mesmo nos instantes de iminente desfalecimento. Nunca traí, nem mesmo aqueles que me traíram. Levantei-me sempre que caí e lambi as minhas próprias feridas. Aprendi a fazer das estrelas minhas cúmplices. Memorizei o encantamento do Sol quando nasce e como capta a beleza dos Oceanos. Das árvores fiz os meus templos e dos sonhos tracei metas, muitos esfumaram-se e voaram, mas nunca deixei de sonhar. Aprendi a entender os alertas dos dias, ganhei a confiança do tempo, aprendi a descodificar as vozes dos ventos que trazem mensagens de tempos sem tempo, certificados com a chancela genética da vida: memórias ancestrais.

Venci solidões e saudades lembrando carinhosamente os ausentes, mesmo que eles não o saibam. Perdi familiares e amigos. Não os trago nos braços mas moram eternamente no meu coração. Bebi lágrimas, sofri, mas renasci nos luares de confissões. Nunca permiti que a angústia, o desânimo, a desilusão me agarrassem, manietassem, numa asfixia sem retorno. Já não há fúrias que me amedrontem. Nem tempestades medonhas, nem desertos escaldantes. Não há tristezas profundas nem silêncios gritantes. Não quero! Continuo atenta à esperança. Sou a heroína da minha própria história! Renasço a cada vitória sempre que a claridade de um novo amanhã clareia as trevas da noite que terminou. (Maria Elvira Bento)

Sorria! Sorrir abre caminhos, desarma os mal-humorados, contamina. Mas sorria com a Alma, não apenas com os lábios

(Léa Waider)


PELOS PERDIDOS NA VIDA

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Por aqueles que partiram, pelos que sobreviveram, pelos que choram dores que não têm espaço. Pelos que perdidos, sozinhos, estupefactos, confusos, deambulam pelos destroços da vida. Pelos que atónitos venceram a brutalidade da Natureza que trocou o esplendor pela mão pesada da destruição, acenda-se uma vela e faça-se com que ela percorra o mundo levando a chama viva da solidariedade humana de todo um Planeta, tocado pela mesma emoção e afecto. Pelas crianças sozinhas, pelas famílias perdidas, pelos sofredores moribundos, pelos estropiados, pelos procuradores da esperança que escavam com as próprias mãos, nos destroços que as águas varreram, o familiar, o amigo ou apenas alguém que ainda mantenha o sopro da vida. Por eles, uma vela que lhes diga que o mundo os tem no coração.

Para os que perderam tudo, pelos que perderam a razão e se perderam nos labirintos dolorosos, pelos que já não têm mais lágrimas, pelos não conseguem deixar os muros de confrangedor silêncio, pelos ansiosos, pelos que já não sentem, não ouvem, não falam, não reagem, acenda-se uma vela. Pelos salvadores da esperança, de futuros, de vidas. Pelos que contra tudo não desistem de agarrar o mundo que lhes desapareceu, pela força indômita, pelos cansaços sem tréguas, pela coragem que reinventa amanhãs, pela odisseia, pela fé, pela mística, pelos seus mundos interiores capazes de partilhar esperança, acenda-se uma vela. Que os desprotegidos da sorte não se sintam sós, nem abandonados, nem perdidos, nem vencidos. O mundo envia-lhes uma vela e um abraço consolador. Estas são de Portugal. (Maria Elvira Bento)

Nunca desista da esperança. Nunca. A esperança é uma afirmação do desejo sublime. É o anuncio do seu sonho mais grandioso. A esperança é o pensamento tornado Divino

 ( Donald Walsch)


HÁ UMA ANSIEDADE QUE DESINQUIETA

Paris, France: A model presents a creation by Iris Van Herpen

Está gélido o ar do tempo. Os corpos estão frios e os olhos lacrimejantes não amansam no sibilar da aragem com voz de neve. Não há calor envolvente que nos sopre murmúrios gentis aos ouvidos, e as lembranças mimosas que adoçam o coração congelam na invernia de um tempo cortante que não apetece abraçar. Não há ilusão que resista ao tiritar incontrolável que nos tolhe as palavras e oferece silêncios nesta temperatura sem encanto e sem brandura.

Continua gélido o ar do tempo que toma formas quando falamos, que saem do peito contraído ao ritmo de cada respiração. Gostava de vencer este cinzento húmido de uma Primavera sem brilho. Sem envolvência. Há uma ansiedade que desinquieta, há uma necessidade de procurar calor que provoque vertigem e que leve ao entusiasmo. Há demasiada quietude melancólica, fria, trémula, desconfortável e eu com tanta coisa para dizer. Vou embrulhar as palavras para que elas não empalideçam com o frio. Não congelem. Vou arrumá-las em ti. (Maria Elvira Bento)

 

Estou aqui não porque deva estar, nem porque me sinto cativo nesta situação, mas porque prefiro estar contigo a estar em qualquer outro lugar no mundo

(Richard Bach)


O MURMÚRIO DO BÚZIO

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Comprei um búzio numa tenda de cortinas estampadas, transparentes, finas, que esvoaçavam ao sabor do vento manso numa tarde a lembrar pedaços de trópicos. Pelo colorido, pela maciez do Sol que aquecia, alegrava e iluminava. O búzio era lindo, encontrei-o só, olhando para mim, no meio de flores de lótus, de incensos, de pulseiras, colares e árvores da vida. Foi amor à primeira vista. Tiro e queda. Encanto e desejo, ali, rodeada de odores místicos e melodias bamboleantes que enchiam o espaço. Olhei-o fixamente e sorri para mim própria.

Estendi a mão, toquei-lhe suavemente com o dedo que deixei deslizar pelo todo do búzio vindo não sei de que Oceano para se render no côncavo da palma da minha mão, amparado com ternura. Deslumbrada pela descoberta, na tenda de cheiros, de cores e de músicas exóticas, levei-o ao meu ouvido e o seu toque frio fez-me estremecer naquela tarde de Sol macio. E, aí, escutei a imensidão do mar que havia dentro dele. Escutei melhor e pareceu-me ouvir, lá longe, distante, um lamento, talvez saudade pelas águas que, um dia, deixou de onda em onda, de maré em maré, de corrente em corrente, afastando-se de casa que recordava na imensidão do som escondido no seu interior a lembrar-lhe o que ele não queria esquecer. Havia nele um pouco de mim: não sei em que Oceano navegas, não me interessa mas não te esqueço, embora não te queira lembrar.  Nem mesmo nos golpes de asa ardentes que me deixam todos os Oceanos em mim. (Maria Elvira Bento)

 

 

 

Contempla-se o mar. À força de o vermos gastamo-nos nele, usamos por inteiro as suas quatro lembranças. Desconhece-se que delírio de ignorância nos vai arrebatar

(Marguerite Duras)